Mulheres em alta

Elas prometem fazer a bolsa cair de forma mais elegante

por Bruno Moreschi
Publicado na revista piauí (11/08)

O coça-coça na virilha de um investidor na frente da Bovespa, a Bolsa de Valores de São Paulo, evidenciava a carência de fineza nessa crise mundial tão feroz. No início da tarde de uma segunda-feira de outubro, ensaiou-se uma esperança com a chegada de oito Marias, sete Anas, cinco Adrianas e outras 150 mulheres animadas em participar da conferência Mulheres em Ação. A aula gratuita, inaugurada há cinco anos e repetida em 102 ocasiões, ensina noções básicas do mercado financeiro ao público feminino.

Trajando figurinos mais incrementados do que calça e camisa sociais, as alunas chegaram ao prédio, tomaram o elevador até o 1º andar e se acomodaram no auditório. Assim que entraram, receberam uma cartilha: na capa, uma mulher de vestido laranja segura um be-bê numa das mãos e um celular e um palmtop na outra. Ana Luiza Genro, 32 anos, a primeira a aparecer, reprovou. “O ves-tido é péssimo.”

Antes de iniciar-se a aula, as amigas Suzane Gutemberg, Lindomara Franco e Joana Romano, todas de 26 anos, apostaram entre risos tímidos que o -professor seria um galã das finanças. Apesar de, aos 57 anos, José Alberto Netto estar mais para Alan Greenspan do que para Brad Pitt, o consultor da Bovespa diz que a quantidade de cursos ministrados o transformou em perito na mente feminina, num contexto econômico. Começou cheio de elogios.

Otimista (ou catastrófico, depen-dendo do ponto vista), Netto fez previsões de um futuro igualitário, em que homens e mulheres segurarão o telefone na frente de telões repletos de números. Apontou que a participação feminina entre os investidores ainda é de 18% no mundo e de 23% no Brasil, mas que desde 2002 o número cresce pelo menos dois pontos ao ano. “Vocês são pacientes por natureza, provavelmente esperarão um filho que demorará nove meses para nascer. E são rápidas na hora de agir; cuidam da criança e da carreira ao mesmo tempo. É o perfil perfeito para investir em ações”, ludibriou, na tentativa de conseguir liquidez entre as mulheres.

Feito o afago, a primeira parte do curso atentou para as noções básicas de economia doméstica. O exercício inicial foi separar as despesas mensais nas categorias “necessárias”, “não tão necessárias” e “supérfluas”. Netto exemplificou: “Aluguel é vital; salão de beleza toda semana, não.” Diante da lição de que “é preciso estar no azul para pensar em investir”, algumas alunas reclamaram, percebendo que, com a conta vermelha, não passariam no primeiro teste. Gabriella Lima, 32 anos, levantou a mão e questionou, em economês: “Podemos fazer um circuit break?” O nome dado à interrupção do pregão não foi o único termo técnico que ela usou durante o dia. Antes da aula, comentara às colegas que se definia como uma mulher independente, futura investidora do Tesouro Direto, investimento que recusa o intermédio de bancos.

Durante o intervalo, o consultor nem sequer saiu do auditório para conferir as novas do mercado financeiro. Cercado por seis mulheres aflitas, incapazes de sanar suas vidas econômicas, Netto passou o olho rapidamente na lista de uma delas. “Que sirva de exemplo para as demais: 400 reais em restaurantes podem muito bem ser substituídos por um convite aos amigos para que apareçam em casa munidos de bebida”, ensinou.

Passado o descanso de dez minutos, teve início a segunda parte da aula: a tão esperada lição de como atuar na Bolsa. Enquanto os slides mostravam organogramas complicados, a maioria das alunas anotava termos que julgavam importantes, acrescidos de explicações pessoais. Em um dos bloquinhos, “Conselho Monetário Nacional” veio acompanhado dos nomes “Mantega, Bernardo e Meirelles”. “Banco Central” foi resumido como “função: controlar a inflação”. Com capricho, Cinthia Alves, de 30 anos, pintou três asteriscos vermelhos ao lado da frase “Não colocar todos os ovos numa mesma cesta”, a máxima que prega a diversificação dos investimentos.

Netto bem que tentou fugir do tema crise mundial – na condição de funcionário da Bovespa, não pode comentar cenários ou sugerir ações que pareçam mais rentáveis. Porém, não resistiu diante de um crédito de 22 perguntas, tais como: “O Brasil será atingido?”, “Obama está preparado para vencer a crise?”, “É verdade que um homem se jogou do prédio da Bovespa?” Respondeu com um discurso genérico na tentativa de combater a especulação: “Não será o fim do mundo. Os bancos centrais estão agindo e a situação não será como a de 1929, meninas.” Palavras que soaram como alívio temporário a Claudia Toscana, 40 anos, que, mesmo não tendo um tostão em ações, se arrepia quando vê os brutamontes se acotovelando no pregão, na tentativa de salvar o mundo da derrocada.

Pontualmente às seis da tarde, uma hora após o fechamento do pregão, deu-se por encerrada a primeira e última aula. Decidida, Ana Luiza disse que apostará nos papéis ON da Petrobras, aqueles mais caros, que dão direito a voto em decisões importantes da empresa. Claudia foi mais cética. “Eles nunca conseguirão perfurar tão fundo para conseguir o novo petróleo”, argumentou, ao justificar a preferência por ações do Bradesco. Ponderadas, as amigas Suzane, Lindomara e Joana continuarão preferindo os trocados da poupança (cerca de 7% de valorização ao ano) a aplicar na Bovespa, que acumula perdas de mais de 40% em 2008.

Numa rodinha, Gabriella, a que pediu um intervalo ao professor, comentou com a propriedade de um investidor agressivo: “A culpa da crise é dos homens.” E diante do silêncio geral, usou números para provar a tese feminista: foi só elas aparecerem que, naquela segunda-feira, a Bovespa fechou em alta de 14,66%.

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