Ham and eggs?

Meio restarurantes, meio lanchonetes. Entre waffles, panquecas, ovos mexidos, hambúrgueres, bacon e café aguado, os diners são os templos da junkie food da cultura americana


por Bruno Moreschi
Publicado na ffwMag! (11/08)

“Health food makes me sick.” Sábia é a frase do escritor Calvin Trillin tão seguida à risca pelos habitantes dos Estados Unidos. Jornalista da revista New Yorker, ele já rodou o país atrás das melhores comidas populares. Costumeiramente as encontra nos diners, os típicos restaurantes norte-americanos de atmosfera plastificada, que reúne num único pedido ovos mexidos, bacon frito, waffles, hambúrguer, muito condimento. E ainda cabe uma torça de maçã.

Minha última experiência em Los Angeles num Denny’s, famosa rede de diners, aconteceu no verão de 2004. Adentrá-lo foi invadir o paraíso. Derrotados por uma fome subsaariana depois de uma festa intensa que poucas cidades seriam capazes de proporcionar, eu e meu irmão nos sentimos na própria Disneyland das calorias. Cuisine du terroir alguma seria capaz de causar sensação de saciedade como a reunião de meia dúzia de waffles com duas bolas de sorvete de creme, golfadas fartas de mel, chantilly e duas singelas torradas incapazes de absorver o óleo excedente do hambúrguer caseiro de 250 gramas. De ressaca, pensei como um típico norte-americano: não é fascinante a reunião comportada de quadrados minúsculos que culminam nesse espesso waffle?

Trudy Rahmig, amiga viajante que conheci num diner, não simplifica as coisas como turistas fariseus que se lambuzam nas panquecas para depois criticá-la. “É evidente que prefiro um sofisticado prato francês, uma pasta italiana, uma paella. Só que pratos assim não combinam com os EUA.” E não teima o clichê: “Vir a Los Angeles e não comer ovos mexidos é ir a Roma e não ver o papa.”


O conceito de vender com agilidade comida quente e barata surgiu em 1872, em Providence, Rhode Island. Walter Scoot teve a idéia de vender sanduíches e café numa carroça a jornalistas exaustos na frente da sede do Providence Journal. Nas primeiras décadas do século XX, as lanchonetes movidas a cavalos tornaram-se restaurantes cujos donos eram quase sempre refugiados da Primeira ou Segunda Guerra. Um único construtor especializado em lanchonetes ergueu nesse período mais de oito mil diners.


Arautos das previsões teimam em decretar o fim dos diners. A primeira foi durante a crise de 1929, que dilacerou os pequenos comerciantes do país. Entretanto, calcados em preços baixos, os diners sequer titubearam. Quarenta anos depois, a embromação se repetiu com a multiplicação dos fast foods. Hoje, panquecas convivem pacificamente ao lado de Mc Donald’s e genéricos.


A robustez desses restaurantes, decorados por rodas de carroças nas paredes e aves empalhadas próximas ao caixa, se alimenta da cultura americana, que não cansa de usá-los como referência. A Bolha Assassina atacou namorados se beijando em carros, dona de casa assistindo TV e, é claro, famintos se fartando em diners. Em Pulp Fiction, Tim Roth e Amanda Plummer concluíram que roubar bancos é besteira. Lucrativo é ferrar com os diners. Em nenhum outro lugar seria tão americano bebericar café aquoso para depois gritar com armas em punho: “Everybody be cool this is a robbery” e Any of you fuckin’ pricks move and I’ll execute every of you motherfucker!”.

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