Tatear tilápia é lúdico

Menos quando o pessoal do Google não para de falar

por Bruno Moreschi
publicado na revista piauí (05/10)
Ilustração de Andres Sandoval

À primeira vista, o ambiente no restaurante Capim Santo era elegante, bucólico e profilático. Palmeiras decoravam o jardim, mesas ao ar livre eram acariciadas pela brisa, um garçom aspergia inseticida para espantar eventuais pernilongos. Nos fundos do estabelecimento, porém, reinava certa angústia. Um grupo de quatorze pessoas tentava disfarçar a tensão. Doze vinham direto do trabalho, a sede brasileira do Google. Esses, rindo em voz alta, tentavam fazer de conta que estava tudo bem. Duas mulheres, mãe e filha, haviam preferido o recato de uma mesa isolada.

Na véspera, todos haviam recebido o e-mail que confirmava o horário e os convocava para se apresentar no restaurante, localizado nos Jardins, em São Paulo. Na mensagem, três pedidos: 1) que avisassem o quanto antes sobre alguma restrição alimentar; 2) que chegassem pontualmente às 20 horas daquela quinta-feira de março; 3) que, exclamativamente, trouxessem “o espírito de explorar, se deixar levar e, claro, aproveitar a experiência ao máximo!”

As psicólogas Maria Lyra e Elis Feldman, organizadoras do evento, apareceram com sorrisos encantadores. Avisaram que o jantar se realizaria na sala ao lado e, sem mais delongas, deram a notícia que todos temiam: os comensais entrariam já de olhos vendados. Ao amarrar a venda sobre os olhos dos participantes, Elis exigia honestidade: que todos tivessem a hombridade de avisar caso conseguissem ver através do pano. O juramento foi universal: sim, estavam todos às cegas.

Asseguradas as trevas, Maria deu as primeiras instruções: “Os talheres estão ao lado do prato, logo diante de vocês. Mas aconselhamos que aproveitem a oportunidade e comam com as mãos.” Espanto, algumas risadas de angústia explícita.

Maria e Elis tiveram a ideia de criar o No Escuro Gastronomia em 2008. Numa viagem à França, as duas foram ao Dans Le Noir, famoso (pelo menos naquelas paragens) por sugerir que as pessoas comam de olhos fechados. Da França tudo se espera e tudo se perdoa: “Ficamos encantadas”, sintetiza Maria. De volta ao Brasil, decidiram criar seus próprios jantares blackout para amigos e familiares. Inexplicavelmente, amigos e familiares acharam que comer sem enxergar era uma grande ideia. Dali para virar um negócio, foi um pulo. Hoje a dupla realiza jantares em residências e em alguns restaurantes paulistanos. O preço varia de 90 a 150 reais por pessoa, dependendo do restaurante e do número de gourmets vendados. (A venda está incluída.)

Para divulgar o empreendimento, foi criado o site noescurogastronomia.com.br, no qual tudo é muito bem explicadinho: “Em um mundo cosmopolita, onde a prática culinária é cada vez mais diversa e difundida, propomos a experiência de jantar como uma vivência que potencializa não só o encontro com o alimento, mas como um ato de explorar os outros sentidos, a si mesmo e ao ambiente, para além da visão e do paladar.”

A primeira vivência do comensal potencializa um encontro não com o alimento, mas com sussurros. As anfitriãs sopram ao pé do ouvido dos gourmets que o primeiro prato já está diante deles. Sobre o que se trata, porém, nem uma palavra – silêncio absoluto, pois é hora de potencializar a vivência tátil: o pessoal apalpa a comida e suspira aliviado. A consistência é boa, fácil de pegar. Só mais tarde saberão que ingeriram um quibe de berinjela recheado com coalhada seca, broto de alfafa e um leve toque de limão.

Enquanto as pessoas comem, Elis e Maria declamam frases sentidas que avivam a experiência e aguçam o espírito. A primeira é de Wim Wenders: “Felizmente a maioria de nós é capaz de ver com os ouvidos, de ouvir e ver com o cérebro, com o estômago e com a alma. Vemos em parte com os olhos, mas não inteiramente.” O grupo parece intrigado, mas a sucessão de experiências não é propícia a longas meditações.

Antes que alguém proponha um debate sobre qual o melhor método para ver com os ouvidos, chega o segundo prato, bem mais desafiador que o primeiro. Ouve-se uma voz feminina algo alarmada: “Isso tem textura de bicho morto!” Melhor se fosse, talvez, mas é apenas uma trouxa de acelga recheada com lascas de palmito.

O bicho apareceria no prato principal: uma tilápia dentro de uma casquinha de mandioca e parmesão. Não foram poucos os elogios à casquinha. No mínimo, evitava-se enfiar os dedos no meio de um peixe. Francis Bacon ensina: “O homem deve criar as oportunidades e não somente encontrá-las.”

Oportunidade que ninguém desperdiçou foi lambuzar as mãos com a musse de chocolate sob uma “telha de pistache” (surpresa que ninguém acertou). É como diz Clarice Lispector (ao menos na versão da noite): “Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível fazer sentido. Eu não: quero uma verdade inventada.” Providencialmente, como fecho, serviram-se lavandas com água perfumada para retirar acelgas, tilápias e pistache das unhas, seguindo-se uma baforada de vapor de água no pescoço de cada um.

Maria e Elis avisaram: “A experiência acabou” – estavam todos liberados para retirar as vendas. O que as pessoas viram foi um ambiente decorado com velas acesas e flores. Um homem perguntou à esposa: “Se ninguém vê nada, pra que tanta frescura na decoração?”

Vicente Carrari, da turma do Google, jura que se entregou de corpo e alma: “Não trapaceei. Não conseguia de fato ver nada.” Gostou muito de todas as vivências, só tendo restrição ao teor de algumas frases que acompanharam a comida. Achou-as “um pouco intensas”.

Enquanto esperavam o manobrista trazer o carro, as duas mulheres da mesa solitária manifestaram opinião divergente. “Não quero ser tachada de chata”, disse a mãe, que pediu anonimato, “mas vim para vivenciar uma experiência lúdica e me puseram numa sala cheia de colegas de trabalho que não calavam a boca. Impossível você se concentrar.” A filha meneou a cabeça, aprovando. Com uma vaga expressão de desgosto, escrutinava as mãos em busca de vestígios de tilápia. Potencializar o encontro com o alimento tem dessas coisas.

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