Olhos

“Maria mudou a água da bacia e começou a lavar os pratos, eu me sentei perto do fogão para manter os pés aquecidos e fumar um cigarro. Observava-a. Estava interessado nela, queria saber alguma coisa a seu respeito, compreender aquele momento em que, como alucinada, me cravara os olhos. Mas meu desejo de conhecê-la não era tão grande quanto o receio de apenas abrir o tampão de suas emoções e depois não saber o que fazer com elas. Não, talvez fosse melhor nem dormir ali. Talvez fosse melhor pensar noutras coisas. Nas complicações do fim da viagem, por exemplo. Precisava alugar uma casa, comprar móveis, providências que sempre me embaraçavam. E tentava pensar nisso, contrafeito, quando me deu conta de que já não ouvia o barulho dos pratos. Maria me olhava, imóvel ao lado da bacia.”

[do conto Sesmarias do Urutau Mugidor, de Sergio Faraco]

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