Captou nossa mensagem?

por Bruno Moreschi
publicado na revista Vida Simples (04/10)

Em 2000, uma mancha verde invadiu um dos rios que atravessam Estocolmo. Por quase uma hora, os pedestres e os motoristas nas margens não sabiam o que pensar. Alguns entraram em pânico achando tratar-se de um ataque terrorista. Outros gargalharam. E os jornais da capital sueca, na ânsia de tentar acalmar a população, publicaram a versão oficial do governo de que o episódio fora causado por algas marítimas. Bobagem. Dias depois, todos ficaram sabendo que o responsável foi o dinamarquês Olafur Eliasson, um dos mais respeitados artistas plásticos vivos, o mesmo que oito anos depois criaria quatro cachoeiras artificiais e transformaria por cinco meses a paisagem de Nova York.

Mas por que manchar na surdina um rio com pigmento colorido não-poluente? Eliasson responde por e-mail: “O rio estranhamente verde fez com que as pessoas enxergassem o mundo de uma outra maneira.” Com somente uma frase, o artista resumiu uma das sensações mais ricas que as artes plásticas podem oferecer a seu público: um novo olhar diante das coisas.

Muita gente afirma não gostar de artes plásticas, porque não entende nada de pintura, escultura e, principalmente, de manifestações artísticas contemporâneas como a de Eliasson. Mas a verdade é que não é preciso integrar uma seita de pessoas cultas para apreciar uma boa obra de arte. Trata-se de uma questão de postura. Que tal aceitar o fato de que a arte é algo inexplicável? Algo em aberto para as mais diversas interpretações, que não combina muito com taxativos sim e não? O mundo das artes plásticas é das nuances. E, por isso mesmo, fundamental em nossa vida.

O olhar
Observar o que algumas pessoas reparam durante uma exposição é deparar com uma das posturas mais comuns em um museu: a obsessão por entender completamente a obra de arte, antes mesmo de apreciá-la. Esses visitantes parecem afoitos em achar a etiqueta pregada na parede que informa o título e o autor da peça. Assim, esquecem-se de simplesmente fitar a obra e, por sua conta e risco, responder do que trata o trabalho.

Teixeira Coelho, curador do Museu de Arte de São Paulo, o Masp, confundiu um pouco esse tipo de público. Ele não chegou a tirar as informações das obras expostas no museu, mas transformou completamente a ordem em que os trabalhos do acervo são mostrados. Até o ano passado, os quadros e esculturas do Masp eram divididos de acordo com a data de feitura e a nacionalidade dos pintores. Hoje, a coleção está em áreas temáticas muito mais amplas. Por exemplo, uma parte é destinada a retratos, outra a temas ligados a mitologia.

O efeito é curioso: um vaso grego de 330- 320 anos antes de Cristo é vizinho de uma tela moderna de 1874 do francês Édouard Manet, ambos na seção A arte do mito. “Foi uma decisão pensada para fazer com que o visitante faça relações muito mais complexas entre os quadros que simplesmente o período histórico”, diz Coelho. Sorrindo, ele completa: “Gostaria muito que minha última curadoria no Masp fosse uma sala imensa com só uma tela exposta. Quem sabe, dessa maneira, as pessoas poderiam concluir que melhor que ver uma exposição gigantesca e cansativa é observar com calma um único trabalho”.

A ideia de Coelho trata de uma questão importante: o tempo de observação que uma obra de arte necessita para ser mais bem compreendida. Olhar rapidamente um trabalho e de imediato concluir se ele lhe agrada não é necessariamente uma atitude reprovável – até porque não existe uma postura única e certa para o visitante de uma exposição. Mas ver um trabalho de arte sem pressa pode causar boas surpresas. Experimente fitar com atenção os olhos da Mona Lisa do pintor italiano Leornardo da Vinci e afirmar com precisão em que direção eles apontam. Ou tente memorizar as múltiplas criaturas que aparecem numa única tela do flamengo Hieronymus Bosch. Você certamente não conseguirá.

É por causa dessa característica de ser inesgotável que fica impossível entender 100% uma obra de arte. E, para os teimosos que tentam colocar um ponto final nas questões que um trabalho artístico pode levantar, a chegada será provavelmente a sua própria ignorância.

O artista e crítico de arte Fernando Cocchiarale, que já deu cursos com o sugestivo título “Quem tem medo da arte contemporânea?”, acredita que uma obra de arte possui funções muito mais sensoriais que a de simplesmente ser entendida num discurso escrito ou falado. Ele explica: “A reivindicação de um entender fácil e objetivo é quase sempre uma resistência diante das sensações que uma obra pode causar. No fundo, quem acha que um trabalho precisa ter uma explicação completa está simplesmente se recusando a experimentá-lo como arte.”

Em Porto Alegre, Maria de Oliveira, de 29 anos, é das pessoas que enxergam uma obra como algo muito maior do que apenas uma peça a ser explicada. Uma vez por semana, ela almoça um pouco mais rápido do que o habitual. Dessa maneira, aproveita parte da uma hora de intervalo que o banco em que trabalha lhe oferece para ir ao Museu de Arte do Rio Grande do Sul. Maria costuma ficar num completo silêncio diante de No vento e na terra, uma tela de 1991 pintada por Iberê Camargo. Trata-se de um trabalho bastante dramático, em que o traço violento típico do artista plástico gaúcho produz a imagem de um garoto caído, talvez morto, num fundo azul-escuro. “Não sei bem o motivo de esse menino estar no chão. Só sei que a imagem é muito forte para mim.” O tempo que Maria já despendeu com a tela não é uma tentativa em decifrá-la por completo. “Posso ficar o resto do dia olhando e vou continuar na dúvida. Gosto dessa pintura por isso.”

O contexto
Alguns insistem em afirmar num tom pejorativo que “museu é lugar de coisa antiga”, como se o local fosse um cemitério de obras ultrapassadas. Sobre isso o crítico de arte italiano Giulio Argan escreveu: “A arte do passado não é um problema do passado, mas do presente.” Ele não poderia estar mais certo. A Leiteira, uma das telas mais excepcionais do holandês Johannes Vermeer, foi pintada entre 1657 e 1658. Quatro séculos depois, ela continua bastante atual. A maneira graciosa com que a moça de touca branca derrama o leite numa vasilha trata do valor edificante do trabalho. E os pequenos cupidos desenhados nos azulejos do canto inferior direito da tela sugerem que ela esteja apaixonada, uma sensação que você provavelmente já sentiu.

Mas e a relutância em aceitar as múltiplas manifestações da arte contemporânea? Um dos maiores preconceitos para com ela vem do fato de várias pessoas não verem a arte de hoje com os olhos de hoje. Uma das obras mais conhecidas do artista plástico brasileiro Cildo Meireles são garrafas de Coca-Cola. Dois detalhes precisam ser observados antes que alguém afirme que isso não pode ser arte. Cildo escreveu nos rótulos das bebidas a frase

“Yankees, go home!”. Em seguida, devolveu as garrafas de vidro para circulação. Por fim, a obra foi produzida em 1970, período em que o Brasil vivia uma ditadura militar, se não apoiada, pelo menos vista com complacência pelo governo americano. Naquele momento, produzir arte numa garrafa de Coca-Cola era algo pertinente e cheio de significado.

Um outro exemplo ainda mais recente confirma que uma obra de arte é o retrato da época em que foi produzida. Em setembro de 2008, o inglês Damien Hirst causou polêmica ao vender na casa de leilões de arte Sotheby’s, em Londres, um conjunto de 223 obras de sua autoria. Uma delas era um símbolo completo de fanfarrice: um bezerro com chifres de ouro dentro de um tanque com silicone e formol. O leilão superou as expectativas e os trabalhos foram vendidos a 111 milhões de euros. Detalhe: ao não receber o auxílio de nenhum galerista para a comercialização, Hirst ficou com todo o dinheiro da venda.

O episódio aconteceu dias antes da falência do banco norte-americano Lehman Brothers, que culminou na crise econômica que se reflete até hoje. A maioria dos críticos de arte concorda que os animais em formol do artista são de mau gosto. Mas tanto eles como alguns economistas consideram que o conjunto das obras de Hirst e sua venda milionária foram o último símbolo de ostentação de um mundo que muito provavelmente não será mais o mesmo. Com essa visão mais ampla, a arte de Hirst ganha um contexto muito mais interessante que uma simples questão de gostei ou não gostei. E nos mostra que, para compreender uma obra de arte, é preciso analisar o contexto em que ela se insere.

Mesmo assim, muitas vezes uma obra de arte contemporânea pode não nos surpreender por estar num espaço inadequado. Assim como uma ópera precisa de um teatro com boa acústica, as artes plásticas também necessitam de um cenário. Para a arte de hoje, o museu tradicional nem sempre é o local ideal. Grande parte da produção artística atual precisa de muito mais que uma parede ou uma sala branca para ser exibida.

O espaço criado até hoje mais propício para a arte contemporânea fica no Brasil, mais precisamente em Brumadinho, uma cidade mineira de quase 34 mil habitantes e localizada a cerca de 50 quilômetros de Belo Horizonte. Ali está o Instituto Inhotim, com 97 hectares de mata nativa e mais de 500 obras produzidas de 1960 até os nossos dias. Dentre elas, um imenso trator carregando um tronco de árvore branco, do artista norte-americano Matthew Barney. O trabalho fala sobre a destruição do meio ambiente e não poderia estar num lugar mais propício: no alto de um morro aonde o visitante chega com a ajuda de um carro elétrico dirigido por um dos funcionários do local. “Museus convencionais muitas vezes só podem colecionar ilustrações ou fragmentos das obras contemporâneas”, afirma Rodrigo Moura, um dos curadores do Inhotim. As palavras de Moura lembram as do artista Hélio Oiticica, que também tem obras no acervo da instituição e sempre questionou a arte mais tradicional. Ele dizia: “Já se vê que a velha sala de museu não dá mais pé”.

O ganho
A arte não cura os males, não opera milagrosamente nas nossas mentes, tampouco nos deixa mais cultos da noite para o dia. Mas o exercício imaginativo que ela nos oferece faz um bem fundamental – e o bem aqui não é sinônimo de apenas contentamento, já que uma obra de arte pode nos causar angústia.

Argan, o mesmo crítico que nos fala que a arte do passado nos pertence, explica: “A arte é indispensável para quem se dedica aos estudos históricos e literários, mas é também útil aos futuros técnicos de uma sociedade tecnocrática, pois poderá lhes servir para não cultivar o fetichismo da máquina e não perder o gosto pela invenção, que nasce da crítica, do julgamento e da vontade de superar o passado”. Em palavras mais pueris, um mundo sem as experimentações vistas nas artes plásticas é um mundo menos humano. Talvez isso seja a única coisa que realmente precisemos entender quando observamos uma obra de arte.

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2 responses to “Captou nossa mensagem?

  1. a idéia do curador do masp em dividir o acervo como nos é apresentado atualemnte, é uma das coisas mais estúpidas que eu já vi. categorias de relevância na história da arte criada pelo próprio curador – coisas como 'pompa', 'natureza', 'retrato' etc etc que trazem uma definiçãozinha de dicionário do lado das obras naquelas paredes bizarras (o projeto inicial da lina bo bardi de montar as obras em espécies de 'cavaletes' transparentes era muito mais sensata, embora saibamos dos problemas relacionados a conservação das obras que tremiam com o movimento da av. paulista – do que da história da arte pelo ponto de vista histórico mesmo -que também tem problemas, afinal, a história da arte parece inútil quando disposta apenas em sua linearidade. a atual disposição do acervo do masp privilegia as obras que o sr. curador acha que devem ser mostradas e como devem ser mostradas – cadê as têmperas? porque colocar o vlaminck ao lado do bosch? – num posicionamento didático e bizarro; se bem que de certa forma combina com boa parte do público dos museus e afixionados por arte em geral, que vão pra ver espetáculos semi-digeridos, acompanhados de guias com informações chatas e fracas perante as obras, ou até mesmo, clichês ou bobagens perfeitamente cabíveis a wikipedia. inclusive, duvido muito que a segunda brilhante idéia do curador de dispor apenas uma obra numa sala enorme, provocasse alguma coisa muito significativa… talvez alguma velha polêmica envolvendo velhos textos do paul valèry. e ainda assim, seria ainda mais arbitrária a escolha do que será visto. a atual disposição do acervo do masp limita a construção da história da arte de cada indivíduo em detrimento da história da arte construída pelo curador – joguem pedras, mas a história da arte faria mais sentido do ponto de vista fenomenológico, criado por cada indivíduo, não apenas a do curador; criar sua história da arte baseada na história da arte do curador, beira o absurdo, ou é de fato absurdo, uma vez que interpretam o que voce vai interpretar -, e destrói principalmente essa possibilidade que teriam os artistas, os estudantes de arte (pelo menos os 'sérios'), e os que realmente gostam de arte, se o acervo fosse simplesmente posto integralmente e em sua linearidade histórica, que, se tem falhas, tem menos do que apresentar apenas a história da arte de alguém (do curador). ou alguém discorda que, se o cara escolhe o que está disponível dentro das obras do acervo, mesmo que ele tenha uma teoria ou conceito ou coisa que o valha, isso ainda não é uma questão, se não pessoal, mercadológica? pode parecer elitista que o museu seja 'nivelado por cima', para 'eleitos', eruditos da arte ou para estudiosos, artistas, etcc mas, uma vez que o argumento utilizado pelo senso comum, por muitos artistas, críticos, curadores, eu, etc, seja justamente que não se precisa 'entender' a coisa pra que seja contemplada – tirando alguns estudiosos do adorno, que ainda insistem em interpretar antes de sentir – não teria problema algum em 'complicar' um pouco a história da arte que nos apresentam no museu, certo? acho uma vergonha a curadoria do masp. e acho uma pena que alguém ache esse modelo de apresentação do acervo uma coisa muito legal já tendo barba.

  2. olha, a história é apenas uma das perspectivas possíveis, e pode tornar o olhar tão viciado quanto o viés escolhido pelo curador ( e caso ele não tivesse uma postura "curatorial" sua função poderia muito bem ser anulada, simplesmente colocando as obras em posição cronológica). é quase tão ingênuo quanto acreditar que toda arte política é uma arte militante e planfetária. um dos maiores problemas de hoje é ver obras antigas com olhos do passado. e rainer maria rilke que não acredita na historicidade da arte? só estou querendo dizer que não existem fatos, e sim versões.

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