Museu é o Mundo

Uma mostra em São Paulo segue à risca as orientações deixadas por Hélio Oiticica. E prova por que ele é um dos nomes mais importantes da arte do século 20

Por Bruno Moreschi
publicado na revista Bravo! (04/10)

O carioca Hélio Oiticica (1937-1980) morreu há três décadas, mas suas ideias sobre arte nunca foram tão pertinentes. A prova disso é uma cena vista na abertura da exposição sobre o artista, no Itaú Cultural, em São Paulo. Um visitante de vinte e poucos anos ajoelhou-se diante de Mergulho do Corpo, uma caixa d’água apresentada como obra entre 1966 e 1967. Sem rodeios, o rapaz enfiou a cabeça no recipiente e voltou com os cabelos molhados. Em seguida, lançou um berro alegre. O convite para que o público interaja com as peças é pedra de toque da produção contemporânea. Oiticica pedia isso há quarenta anos.

A mostra permite que se acompanhe a trajetória de um artista que começou tímido para depois se tornar um questionador ferrenho do status quo da arte. A calmaria, se é que pode se chamar assim algum período de seu legado, fica concentrada no primeiro andar. O espaço exibe pinturas e relevos feitos quando ele convivia com o Grupo Frente, liderado por Ivan Serpa (1923-1973), um dos precursores da abstração geométrica no Brasil. Já os dois andares subterrâneos do prédio da avenida Paulista revelam o que Oiticica criou de mais magistral. Lá estão os parangolés – emaranhados de panos para serem usados pelo público -, o famoso tecido de 1968 em que Oiticica estampou a frase “seja marginal, seja herói”, além de instalações famosas como o penetrável – instalação em que o público é convidado a entrar – Tropicália, que deu nome ao movimento cultural que marcou profundamente a arte brasileira.

Um dos grandes méritos da individual é que tudo o que está lá segue exatamente as instruções de Oiticica. O artista deixou anotações detalhadas sobre quase todos os seus trabalhos. Sua intenção era que sua obra pudesse ser recriada quantas vezes fossem necessárias. Os curadores Fernando Cocchiarale e César Oiticica Filho, sobrinho do artista, respeitaram todas as orientações.

Uma exposição rigorosa e bem produzida assim é um alívio depois do incêndio ocorrido em outubro no ano passado na casa do irmão do artista. Na ocasião, o fogo destruiu cerca de 30% do total de obras guardadas na residência e chamou a atenção para o fato de um conjunto de valor histórico inegável não estar em um museu. A família de Oiticica garante que gostaria de colocá-las num espaço público à altura de sua importância. Até agora, no entanto, não há previsão para que isso aconteça. Enquanto isso, Oiticica continua admirado no exterior. Em dezembro do ano passado, um vídeo do artista com um de seus parangolés lotava uma sala no museu espanhol Centro de Arte Reina Sofía. Herói no exterior, marginal no Brasil.

Leave a comment

Filed under Uncategorized

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s