O cinema mais cheio do Brasil

A cineasta Laís Bodanzky tinha um dinheiro na poupança. Não, ela não comprou um carro novo. Com o veículo que já tinha, preferiu viajar pelo Brasil, com o marido, exibindo cinema para quem nunca entrou numa sala escura

por Bruno Moreschi
publicado na revista Sorria (04/10)
Foto: Na Lata

Sentada em sua produtora, a Buriti Filmes, em São Paulo, a cineasta Laís Bodanzky, de 40 anos, fica de costas para uma parede repleta de recortes de jornais. Os textos rasgam elogios a seus filmes, como Bicho de Sete Cabeças, de 2001. Em abril, estreia sua nova produção, As Melhores Coisas do Mundo. Mas o maior orgulho de Laís é outro. “Filmes são para o ego. Muito melhor é ver os resultados do Cine Tela Brasil”.

Este é o nome do projeto criado por ela e pelo marido, o roteirista Luiz Bolognesi, em 1996. A denominação original, Cine Mambembe, combinava bem com a aventura improvisada a que o casal se propôs: viajaram, por conta própria, por quase 15 mil quilômetros, usando um projetor e um lençol branco para apresentar a magia do cinema a moradores de áreas pobres do país. De lá para cá, o projeto se profissionalizou. Hoje, conta com 40 funcionários e duas salas de cinema itinerantes tão boas como as de shopping centers – inclusive com ar condicionado! O caminhão que leva os equipamentos serve também como sala de projeção. A cada três dias, ele muda de cidade. Sempre na periferia. O projeto também oferece oficinas gratuitas de cinema.

Laís não se intimida com o fato de que, segundo o IBGE, 92% dos brasileiros vivem em regiões sem nenhum cinema. O aparente impedimento tornou-se estímulo. Após ser visto por 600 mil pessoas em 80 cidades, o Cine Tela Brasil apresenta média de ocupação das salas de 88% – a maior entre todos os cinemas do país.

Por que viajar exibindo filmes?
Laís – Foi uma reação a um cenário complicado. Para você ter uma ideia de como o início da década de 90 foi terrível para o cinema nacional, em 1992, um único longa-metragem foi feito no Brasil. Por isso, a grande maioria dos diretores produzia apenas curtas. E eles eram exibidos em festivais, para um público pequeno e especializado. Como mudar a política cinematográfica do país? Não sabia a resposta, mas decidi não ficar só reclamando. Eu e o Luiz fomos onde o público estava. E passamos a exibir curtas em escolas públicas, praças e associações de bairro da periferia em São Paulo.

Era uma oportunidade para acumular experiência e fazer o projeto crescer?
Laís – Isso mesmo. As exibições em São Paulo deram tão certo que não restavam dúvidas de que era preciso cair na estrada. Como aquelas trupes que montam seus circos nas cidades do interior, sabe? A nossa primeira viagem foi completamente improvisada. Em 1997, eu, o Luiz e um projetor portátil emprestado percorremos quase 15 mil quilômetros num carro estilo perua. Eram comunidades do Norte e Nordeste, cujos moradores nunca foram a um cinema. Em alguns lugares, não havia sequer luz elétrica. Lembro-me de que lia na época o livro Dom Quixote. E brincava que éramos Dom Quixote e Sancho Pança. O carro era o nosso cavalo Rocinante.

Mas quem financiou a aventura?
Laís – Nós mesmos, com o dinheiro da nossa poupança! Hoje, o projeto tem o apoio de patrocinadores.

Nunca aconteceu algo perigoso?
Laís – O único episódio tenso foi na aldeia Kraó, em Tocantins. Quase ninguém da tribo falava português e o receio dos índios era grande. Na primeira reunião, só meu marido pôde participar, já que eles jamais considerariam a opinião de uma mulher. Conseguimos exibir os filmes, mas, na hora de irmos embora, eles queriam ficar com o projetor. Foi custoso convencê-los do contrário. Mais tarde pensei melhor: se queriam o aparelho é porque certamente gostaram da sessão da noite anterior.

É possível definir o gosto dessa plateia imensa que não tem acesso ao cinema?
Laís – A cena que provoca risos numa tribo pode ser absolutamente trivial para os moradores de uma pequena cidade. Mesmo assim, percebi que as pessoas gostam de se reconhecer na tela: lembram do tio, da professora, da vizinha e, assim, criam um vínculo emocional com o filme. O cinema nacional se beneficia muito disso: nossos filmes não têm legendas; os cenários, as roupas e as músicas são reconhecíveis. Não me lembro de alguém ter reclamado que não havia filmes de Hollywood nas nossas sessões.

E as pessoas sempre gostam dos filmes?
Laís – Sim, na maioria das vezes. Mas em Piranhas, uma cidade nas margens do rio São Francisco, foi diferente. Na nossa primeira viagem, mostramos curtas-metragens, mas a população queria mesmo ver Bye, Bye Brasil, o filme de Cacá Diegues, de 1979, que teve algumas cenas gravadas ali. Voltamos uma segunda vez e exibimos a película. Sessão lotada e… o filme mostrava a cidade apenas nos seus primeiros minutos. A decepção foi visível, especialmente para o morador que fez o pai do Fábio Júnior e era muito famoso na região por isso. Olhei para o Luiz e pensei comigo mesma: em vez de ter exibido o filme, não teria sido melhor deixar aquele povo só com o sonho do cinema?

Você acredita no chavão: “o cinema pode mudar a vida das pessoas”?
Laís – Sim, pois pode fazer com que elas enxerguem o mundo de outra maneira. Um filme é capaz de fazer o espectador entrar num universo que não é o seu e entender que a sociedade é plural, que existem várias maneiras de pensar e agir. Isso torna as pessoas menos preconceituosas, por exemplo. Vale para quem viu um filme pela primeira vez, para mim e para você.

E quando foi a primeira vez em que você foi ao cinema?
Laís – [Segundos de silêncio] Não me lembro. Mas há uma lembrança que tem muito a ver com o Cine Tela Brasil. Meu pai [o também diretor Jorge Bodanzky] projetava os filmes dele em casa para os amigos. Por causa da ditadura, as sessões eram clandestinas. De alguma maneira, continuo nessa luta para que as pessoas possam ver um filme sem nenhum impedimento.

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