NÃO + NÃO = NÃO

A luta de um jornal nos estertores do capitalismo

por Bruno Moreschi
publicado na revista piauí (04/10)

Naquela tarde de fevereiro, Reginaldo Maia suava em bicas, no que o ajudavam seus fartos cabelos pretos encaracolados até o ombro. Envolto na sensação térmica de 40 graus do centro de São Paulo, ele estava para alardear seu ódio ao capitalismo. Faltou-lhe o fôlego, porém. Um pedaço de sombra no metrô Anhangabaú logo o revigorou, e em segundos ele berrava aos transeuntes um pregão iracundo: “Caos! Crise! Compre o Transição!” O estopim dos berros estava debaixo do braço: um tablóide mensal de doze páginas, impresso nas cores preto e vermelho, muito bem-feitinho.

Com tiragem de 12 mil exemplares e vendido a 1 real, o Transição Socialista pode ser encontrado na usp, na Unicamp, em algumas bancas de São Paulo e, conforme a sorte, em pontos especialmente movimentados da cidade. Os vendedores são livres para escolher o contrato de trabalho: podem ficar com 75 centavos do preço de capa ou, no regime de dedicação integral à débâcle do sistema, não ficar com nada. “Fico com os centavos. Não posso ser tão caridoso com a causa socialista”, diz Maia, um moço de 24 anos.

Folhear o Transição é sobrevoar um mundo agônico a instantes da implosão derradeira, gestada pelos horrores inerentes ao capitalismo. Em dezembro veio o alerta: “Apagões, engarrafamentos, inundações, quedas de pontes e de shoppings, pânico nos trens e no metrô. Sinais de agonia do sistema”. Os leitores nem tinham acabado de comemorar quando, em fevereiro, a primeira página estampou em letronas vermelho-sangue: falência dos partidos: barbárie capitalista avança em 2010. Como ilustração, closes de bons companheiros de balaio: Lula, Dilma, Heloísa Helena, Arruda, Renan, Sarney e Collor, este flagrado num sorriso maquiavelicamente espontâneo. “Fica escancarada a absoluta crise da direção revolucionária”, resumiu o editorial. “Como dizia Trotsky, já nos anos 30, tal crise consiste no problema maior de nossa época”; “as condições objetivas da revolução, já dizia ele então, começam a apodrecer.”

Trotsky dixit? Maior força não teriam os sussurros de Maomé ao pé do ouvido de um jihadista. Um texto dele de 1938 – Programa de transição: a agonia de morte do capitalismo e as tarefas da Quarta Internacional – é a grande inspiração do jornal, que adota vários recursos estilísticos para marcar suas posições. Aspas em profusão sublinham o miasma das segundas intenções que empesteiam o mundo. Assim, os líderes mundiais jamais pretenderam reconstruir o Haiti; o que almejam é, isto sim, “reconstruir o Haiti”. O uso do hífen na criação de neologismos tem grande poder de síntese, aglutinando ideias a serem combatidas tais como a universidade-shopping e a escola-prisão. Para sacudir o eventual torpor dos trabalhadores e da juventude, o final dos artigos explode em exclamações, maiúsculas e negritos: abaixo a barbárie capitalista! viva a iv internacional e o mnn [Movimento da Negação da Negação – ver adiante]! viva a vida! viva o futuro! – este, um fecho esperançoso, deixando claro que a morte do capitalismo não é o fim do mundo. Pelo contrário.

A ideia do Transição nasceu em 2005, quando Lula e o pt corriam atrás do segundo mandato enquanto se haviam com o mensalão. Desoladas de tudo, cerca de 100 pessoas (a maioria estudantes e sindicalistas) reuniram-se no Centro Universitário Maria Antonia, cenário da antológica briga campal de 68 entre a esquerda da usp e a direita da Universidade Mackenzie. Os 100 tiraram um consenso: 1) apoiar partidos como o pstu ou o pcdob não moveria uma palha em prol da revolução; 2) apoiar a oposição, encarnada no pfl e no psdb, seria uma tática só explicável em termos impublicáveis. Diante do beco sem saída, um dos quadros mais teóricos presentes ao encontro pescou o capítulo xxiv d’O Capital: “A produção capitalista produz, com a inexorabilidade de um processo natural, sua própria negação. É a negação da negação.” Uma emoção arrepiou a assembleia – e assim nascia o mnn, o Movimento da Negação da Negação.

Deixando barato o fato de a negativa de uma negativa vir a ser na verdade uma afirmação, os militantes do mnn forraram a cidade com cartazes que pregavam o voto nulo em 2006. Terminada a campanha eleitoral, tinham comitês não só em vários pontos de São Paulo, mas também no interior do estado e em outras três capitais: Rio de Janeiro, Brasília e Campo Grande. Dois anos depois, em 2008, lançaram o Transição Socialista.

O presidente do mnn, Rodrigo Brancher, usa uma barba cerrada que disfarça os seus 26 anos. Ele estuda arquitetura na usp, onde acaba de iniciar o 15o semestre letivo. “No máximo em uma década”, afirma, “teremos as 500 mil assinaturas que a legislação exige para transformar o mnn num partido de fato. O Transição é fundamental nessa luta.” Só faltam 450 mil.

Brancher explica a linha editorial com exemplos concretos do que desgosta a equipe, formada por umas quinze pessoas. Marina Silva é uma que faz o jogo do capitalismo. “Já batemos feio nela.” É a Heloísa Helena da vez, “entra na disputa só para causar a falsa impressão de que o sistema permite uma alternativa viável”. Com Serra ele não perde tempo. Ao ouvir o nome de Dilma Rousseff, faz uma careta. Lula? “É um Bonaparte. O processo de sufocamento do sistema precisa de figuras assim, um grande símbolo para apaziguar o movimento da classe operária.” Arremata com um suspiro meio vaticinante: “Mal sabe ele… Esse equilíbrio é absolutamente instável…”

Sobre as instalações do Transição, Brancher desconversa, mas Fernando Dillenburg, de 47 anos, um dos mais experientes da equipe, concede em abrir o jogo, no tanto que o jogo pode ser aberto: “Ainda não temos uma redação fixa, mas muita coisa é discutida na sede do mnn”, cujo endereço é segredo de estado: “Por motivo de segurança, preferimos não contar. Sabemos que a classe dominante não está disposta a aceitar grupos divergentes. A democracia é só fachada.” Escaldadíssimos, nem a Trostky revelariam quanto custa cada edição e de onde vêm as fontes de recurso.

Bruno Soares, de 24 anos, formado em rádio e tv, tem boas razões para concordar. Ele coordena o grupo que vende o jornal pelas ruas de São Paulo e não cabe em si ao expor uma de suas cicatrizes revolucionárias, adquirida há três meses. Ciente de que os transportes de massa são ótimos lugares para fazer avançar a causa, ele pegou uma pasta de couro, entupiu-a com exemplares do Transição e foi oferecê-los nos vagões da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos. Ignorou, óbvio, o fato de ser proibido fazer comércio ali dentro – o sistema existe para ser subvertido -, e estava pois em plena subversão quando assim, do nada, materializou-se à sua frente um brucutu da segurança. Que prontamente o expulsou da estação.

Não adiantou argumentar que ele, brucutu, era um explorado. Também não adiantou esclarecer que a pasta de couro não era propriedade da revolução socialista. Os ouvidos moucos da repressão, pouco se lixando para detalhes, desapareceram com a pasta e tudo o que ela continha. Soares naturalmente não se surpreendeu: “Foi mais uma apelação de um sistema econômico que está agonizando! E sabe disso!!”

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