Quase Aurora

“… aquelas estranhas leituras ou o fato de abrir o espírito ao conteúdo delas, talvez tenham levado a me ocupar de um instigante objeto : uma garrafa de Bacará posta em minha mesa de trabalho.
Por alguma razão tinha ali deixado e me apegara a ela, embora estranha a meu gosto. Pus-me a “decorá-la” inadvertidamente, e de modo bizarro. Um troço de cristal, fragmentos de ímã, uma correntinha, um fio de cabelo deixado ao léu e mesmo um amálgama terroso que sequer suspeito de onde tirei… compunham nela um talismã.
Um certo dia estando sentado prestes a urinar, decidi como que involuntariamente a fazê-lo ali mesmo, surpreendendo-me com o inusitado…eis que o objeto tomava ares de acabado, se configurando como uma lamparina. Refletindo luz agradável de tom amarelado. Por lá ficou e assim me habituei a sua presença.
– Tudo que narrei aconteceu de um modo completamente estranho, involuntário, inconsciente mesmo, diria.
À visão da peça não me lembrava de como teria ido parar ali, menos ainda porque fora composta daquele modo enigmático, com aquele algo de talismã. Mas era “boa companheira” quando me dispunha a desenhar estava ali, e sua contemplação me agradava. Não raras vezes me surpreendi olhando o vazio embora visasse o “troféu-talismã” .
Se assim digo é porque nele depositava uma quantidade de fonte de inspiração. Não que o usasse como modelo para meus desenhos mas na contemplação dele via outras imagens como que subjacentes a ele, vapores ou sombras de naturezas totalmente diversas.
Embora não soubesse o que havia preparado, tinha a nítida impressão de que fora feito através de mim, não por mim, algo como psicografado…talvez por isso me atraía, produzia efeitos colaterais, remetendo a projeções…
– Minha disposição ao desenho, no entanto, diminuíra.
Sou um homem de disciplina e passava o expediente à mesa.
Embora com a mente carregada de imagens, o papel continuava em branco. Devaneios, olhar perdido de brilhos e reflexos provocados pela lamparina psicografada. Vagas lembranças e imagens fugazes representavam o fim do expediente. Foi a reincidência deste fato que fez valer a hipótese de que aquela não era uma lamparina talismã, mas que involuntariamente havia composto e estava diante de um phanoscópio de projeção, que a mim fora ditado.
Bons demônios da intensa luz de outono!
Tendo pousado o olhar no phanoscópio, ocorreu-me estancar a luz ofuscante com papel úmido que na mesa, esperava a aquarela.
Não sei bem por quanto tempo mantive este anteparo que gotejava em minhas mãos. Fiquei surpreso ao colocar a folha já seca à mesa e nela constatar uma nítida impressa, embora fugaz, projeção.
Micro partículas de cristal haviam sido filtradas, se depositando ordenadamente a formar uma imagem. Límpida cena, minuciosa paisagem, quase aurora revelada em papel.
– O que supunha ser um phanoscópio de projeção, se convertera no que denominei “phanógrapho policromático de deposição”.
O que ocorrera inexplicavelmente, veio a ocorrer outras vezes.
Me dediquei a recompor do mesmo modo que a primeira, outras “lamparinas” , como que ditadas a mim e com as quais pude revelar esta série de “phanografias cromáticas de deposição”.
São elas o conteúdo deste volume.

* Dei a estas séries sugestivos nomes pelo mesmo método em que me foram, pouco a pouco, reveladas.”

[Texto escrito por Tunga para sua exposição Quase Aurora (2009) na galeria Millan. A obra Sem título (2005) faz parte da individual.]

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