Sobre multidões

Segundo a arte pop, o mundo caminha para a uniformidade. Em sua obra, o americano Allan McCollum aponta para as diferenças, indo contra essa visão

 Por Bruno Moreschi
publicado na revista BRAVO! (10/09)
crédito da imagem: courtesia da Luciana Britto Galeria

Em 1967, numa entrevista ao jornal The New York Times, o artista americano Tom Wesselmann resumiu uma das grandes crenças da arte pop: “As pessoas ficaram iguais a sardinhas da mesma lata”. Tanto nas pinturas de homens sem olhos e bocas de Wesselmann quanto nas pilhas de embalagens de sabão em pó de Andy Warhol, o mundo interpretado pelo pop aparece quase sempre numa enrascada, em que a individualidade dá lugar a um cenário massificado. Essa ideia um tanto pessimista continua bem forte no imaginário coletivo. E, nesse contexto, a primeira retrospectiva no Brasil do americano Allan McCollum pode ser vista como um átimo de esperança.

As sete obras expostas na galeria Luciana Brito, em São Paulo, vão contra o pensamento vigente de que nos tornamos seres pasteurizados. McCollum costuma reunir em uma única série dezenas, centenas e até milhares de objetos, que num primeiro olhar parecem idênticos. É o caso de Glossies, um conjunto de 65 pequenas folhas pintadas com aquarelas negras de formato retangular e dispostas sobre uma mesa de madeira no centro da galeria. As pinturas são muito parecidas, mas mínimos detalhes em suas texturas as tornam indiscutivelmente únicas.

Outro destaque da individual, Plaster Surrogates, também questiona a uniformidade aparente. Dispostos nas paredes brancas do andar térreo da galeria, 70 trabalhos diferenciam-se apenas pelos contornos de seus desenhos, ora estreitos, ora mais largos. É como se McCollum estivesse a todo instante nos dizendo: existem sempre singularidades, mesmo neste mundo aparentemente tão igual. O artista foi um dos destaques da Bienal de São Paulo do ano passado. Na época, apresentou 1.800 desenhos, todos distintos, mas derivados de combinações entre um arco de 90 graus e uma linha reta. A obra, intitulada Drawings, está na mostra em uma versão menor, com 30 peças.

Um detalhe revela muito sobre a arte de McCollum. Como se vê nas placas informativas que acompanham os trabalhos, eles possuem uma data de início de feitura, mas quase nunca uma de finalização. A ausência sugere que o artista esteja em um extenso processo criativo. Nada está de fato terminado. As obras de McCollum, muitas vezes monocromáticas, negras, são como indivíduos de uma mesma espécie. Integrantes de uma multidão que, como cada um de nós, lutam para se diferenciar.

Leave a comment

Filed under Uncategorized

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s