Festim diabólico

Quando o lar vira um palco

por Bruno Moreschi
publicado na revista piauí (08/09)
Ilustração de Andres Sandoval

Ricardo Frayha, 24 anos, achou que seria pior. Durante quatro dias, sua função na vida foi segurar um celular e atender ligações estranhas de gente que nunca tinha visto. A cada horripilante “Hello Moto…”, ele tremia. Numa delas, ouviu o desespero de uma senhora que se perdera na região central de São Paulo: “Esqueci meus óculos! Não vejo nada no mapa!”, ela berrava. Cabia a Frayha, justamente, explicar a ela as coordenadas. Acalmada, a senhora encontrou a avenida São Luís.

Todas essas operações diziam respeito a algo que, na falta de definição melhor, talvez pudesse ser chamado de “experiência teatral”. As peripécias se desenrolaram em junho, entre os dias 24 e 27.

ato 1: Um funcionário do Sesc Consolação recebe 10 reais de cada aventureiro enfileirado à sua frente, o qual, por sua vez, deve escolher um dos três mapas dispostos numa mesa de escritório improvisada.

ato 2: Munidos do mapa e do número de celular do jovem Frayha, os aventureiros se distribuem em duplas, e a pé saem para percorrer os bairros adjacentes: Higienópolis, Santa Cecília, Vila Buarque, República, Consolação e Bela Vista.

ato 3: Na cara dura, os grupos vão entrando nas casas e apartamentos assinalados no mapa. No interior de cada lar, eles se deparam com cenas variadas – estapafúrdias, quase sempre.

Quem mandou pagar 10 reais?

A idéia, nascida na Alemanha em 2002, chegou ao Brasil pelas mãos de Ricardo Muniz e Matthias Pees, sócios da Interior Produções Artísticas Internacionais. Com o patrocínio do Instituto Goethe, os dois saíram à cata de almas dispostas a abrir a casa ao público. Foi necessário um árduo trabalho de convencimento, em geral junto a amigos, atores e gente suficientemente arejada para se permitir uma coisa dessas. Prova contundente do quão espantoso é o gênero humano, conseguiram a adesão de 22 pessoas, que, por sua vez, abriram as portas a cerca de 640 visitantes.

No segundo dia do evento, Priscilla Gonçalves escolheu o mapa de Higienópolis e, com o peito inflado de desbravadora cultural, rumou para a avenida Angélica. Na frente do número 896, um prédio, recebeu de uma funcionária do Sesc um sistema de áudio-guia. Pegou então o elevador e baixou no apartamento 82 – vazio, vazio. “Estranhas coisas aconteceram aqui”, repetia o guia fantasmagórico nos ouvidos da moça.

Priscilla até achou graça nessa tentativa de assustá-la. Soava a filme B. Sem titubear, obedeceu à ordem e se dirigiu ao banheiro. Abriu a porta. A cortina do boxe parecia esconder algo muito ruim. Lembrou-se da criatura horripilante na banheira daquele filme do Stanley Kubrick, O Iluminado, e se deu conta de que estava com medo. No afã de seguir adiante, esbarrou a mão na tecla stop do seu áudio-guia. Fez-se um silêncio maligno – Priscilla não ficou dando sopa. A passinhos ligeiros se escafedeu para a sala de televisão, mais arejada e com luz. Esperou o companheiro pagante terminar a ronda no quarto e deu no pé, deixando para trás o mistério do boxe.

Tudo melhorou na casa seguinte, um trailer ancorado no meio de um estacionamento, onde a moça foi muito bem recebida. Ali a dançarina Letícia Sekito evoluía como uma gueixa. “Bravo!”, aplaudiu Priscilla.

O artista multimídia Lucas Bam-bozzi, morador da rua General Jardim, sonhava soltar treze gatinhos na sua quitinete. A idéia era que as duplas entrassem com câmeras infravermelhas, o que daria um efeito sensacional: cada par de olhinhos se transformaria em pontos vermelhos flutuando no ar. A Sociedade Protetora dos Animais, pouco sensível a questões estéticas, protestou. O jeito foi se contentar com sete gatos no escuro.

Em Santa Cecília, uma moradora avisava na entrada do prédio: “Eles estão esperando vocês lá no quarto.” Quem se animou deu com dois caixões num beliche. De dentro deles, brotavam vozes que contavam o que costumam fazer no dia a dia. Nada mais.

Quem entrasse no apartamento 61 do edifício 867 da Consolação encontraria a fotógrafa Lenise Pinheiro vestida de freira. Acima de seus lábios, vai-se saber por quê, corria um filete de espuma de barbear. Lenise não estava sozinha. Duas atrizes dividiam o espaço com ela. Ao fundo, uma freira depilava a perna. À frente, mais à vista, se notava uma – se é que existe tal coisa – freira ninfeta, uma Lolita religiosa de sorriso pimentinha. Lenise explicava: “Quando eu tinha 12 anos, encenei uma peça no Colégio Maria Imaculada que falava de repressão. Estávamos no regime militar. Fui expulsa pela madre e dali em diante me tornei uma obcecada pelo hábito.”

No apartamento 97 do prédio 1106 da Angélica, a faxineira que dava expediente no local discutia felicidade citando o filósofo alemão Arthur Schopenhauer, que nunca foi muito feliz. Num prédio vizinho, uma mãe ensinava o filho a fazer bolo. Próximo à praça Roosevelt, numa cobertura onde tempos atrás funcionou uma boate, uma antiga moradora contava histórias picantes a respeito do lugar. Opinião do advogado Abelardo Shimabukuro, um dos primeiros a se animar com o projeto: “Quando saio dos apartamentos para a rua, tenho a ligeira impressão de que o mundo está sendo encenado para mim.”

Uma performance esperava os visitantes no último andar de um prédio na Frederico Abranches, em Santa Cecília. Ao chegar, eles eram convidados a vestir coletes à prova de bala e a bebe-ricar chá de camomila, um modo de prepará-los para as fortes emoções que se seguiriam. De súbito, materializou-se na frente deles a atriz Elisa Ohtake e o ex-militar (segundo-tenente) e dançarino Lineu Palaia. “Vamos correr até a varanda e atirar!”, ordenaram. “É um ataque contra a tristeza dessa cidade!” Muniram-se todos de pistolas de água e correram para a varanda, imensa. Tiros encharcados, confetes multicoloridos, rojões de fumaça vermelha. Todos gritaram, irritantemente felizes.

Uma noite, passava por ali um helicóptero da Polícia Militar, que mirou o canhão de luz nos endiabrados. “Estava combinado?”, quis saber a dupla de visitantes, de queixo caído. Até os atores se impressionaram. se impressionaram.) Foi o momento Broadway do tour. Deixou no chinelo o helicóptero de Miss Saigon.

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