O artista que não se empanturra

Com excesso de recursos à disposição, a videoarte tende a um maneirismo grandiloquente. Uma exceção é Gary Hill — que aposta na economia de meios para chegar a um resultado provocativo e maduro

Por Bruno Moreschi
publicado na revista BRAVO! (08/09)
crédito da imagem: courtesy of the artist and Donald Young Gallery, Chicago

O psicanalista alemão Erich Fromm (1900-1980) costumava repetir: “A ganância é uma cova sem fundo, que esvazia a pessoa em um esforço infinito para satisfazer a necessidade, sem nunca alcançar a satisfação”. A divagação diz muito sobre o estado em que se encontra a videoarte. Diante de uma mesa farta de recursos tecnológicos apetitosos, a maioria dos videoartistas se empanturra. E são raras as vezes em que produzem algo que vai além da mera ostentação visual. Com cinco vídeos em cartaz no Oi Futuro, no Rio de Janeiro, além de um trabalho na 5ª Bienal VentoSul, em Curitiba, o americano Gary Hill é um dos poucos artistas que conseguem usar o vídeo de forma consistente — e o segredo está no seu comedimento ante o excesso de opções típico do suporte. Não à toa, detesta a alcunha que colocam antes de seu nome. Em vez de videoartista, prefere ser visto como um escultor. Não há como discordar de que ele esculpe suas imagens.

Hill, que nasceu em 1951, na Califórnia, foi um artista precoce. Com apenas 13 anos, finalizou com um grupo de amigos o vídeo Skaterdater, de quase 18 minutos, um dos primeiros do mundo a tratar de skate. A receptividade foi tamanha que o filme, de 1965, recebeu a Palma de Ouro no Festival de Cannes como melhor curta-metragem e uma indicação para a mesma categoria no Oscar do ano seguinte. Quase uma década depois, Hill respirou os ares alternativos dos anos 70. Uma comunidade nova-iorquina de artistas que pregavam a possibilidade de um novo mundo passou a ser a sua casa. Pouco depois, ao lado de nomes como Tony Oursler e Bill Viola, logo ele encontrou galerias e museus de portas abertas para acolher suas propostas inovadoras. Hill, todavia, era assumidamente o menos afoito com o apelo do “novo pelo novo”. “Frequentemente abandono as imensas possibilidades para me deparar com significados mais viscerais”, diz ele.

Os trabalhos de Hill expostos no Rio de Janeiro mostram questões diferentes das levantadas em sua vinda anterior ao Brasil, há 12 anos. “Hill está numa fase mais performática. Ele continua lidando com o tempo, tema central para a videoarte, mas as questões parecem esbarrar agora em seu próprio corpo”, explica o curador da exposição, Marcello Dantas. Pelo menos duas das obras comprovam sua postura comedida diante do excesso de recursos como a computação gráfica, o loop e a edição frenética de imagens. Viewer (Observador), de 1996, é uma projeção de 14 metros de comprimento que exibe uma fileira de pessoas fitando o público pelo museu. Ao filmar seus personagens de forma impávida, Hill faz deles figuras mais reais. E inverte a relação. Lá é a obra de arte que observa o visitante.

Em outra produção mais recente, Wall Piece (Pedaço de Parede), de 2000, ele mesmo se filma dando pulinhos no escuro e se debatendo contra a parede. A luz se acende quando Hill está nas alturas. Na mente do espectador, trata-se do registro célere do momento em que um homem voou. Uma forma simples e espetacular de apresentar como a percepção do tempo é algo relativo — e intimamente ligada aos nossos movimentos.

Como qualquer um de nós, Hill não tem a mínima ideia do futuro da arte, cada vez mais envolta pelos benefícios e malefícios da inovação tecnológica. A décima edição do Festival Internacional de Linguagem Eletrônica (File), aberta neste mês no Centro Cultural Fiesp, em São Paulo, sugere que ela pende para certo maneirismo grandiloquente. Entre as atrações, está o catalão Marcel.lí Antúnez Roca, conhecido por imensas instalações repletas de parafernálias eletrônicas. Sua obra Metamembrana, que brinca com a imagem dos visitantes, ocupa grande parte do subsolo da Fiesp e é tão complexa que os organizadores da mostra só conseguiram verba para colocá-la em funcionamento na primeira semana da temporada. Outro artista talvez deslumbrado com as possibilidades tecnológicas atuais é o norte-americano Ken Goldberg. De 1995 a 2004, ele controlou um site em que as pessoas podiam comandar pela internet o braço de um robô instalado em um jardim. Foi interessante ordenar à geringonça plantar flores e regá-las, por exemplo. Mas, como arte, o trabalho não deixa de ser um tanto ingênuo.

Mesmo com um futuro provavelmente mais megalomaníaco, Hill não teme o porvir. Também disponibiliza suas obras gratuitamente em um endereço pessoal na internet que faz questão que apareça na reportagem: vimeo.com/user2002575. “Nunca fiz vídeo para vender”, responde com a segurança de quem possui 28 trabalhos na maior coleção de videoarte do mundo, a Electronic Arts Intermix, em Nova York, com 3,5 mil obras em seu acervo.

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