"Debaixo da aparência"

“Há uma camada de poeira que recobre as coisas, protegendo-as de nós. Polvilho escuro de fuligem, fragmento de sal e de alga, toneladas de material em grãos que vão cruzando o oceano transformam-se em fiapos transparentes depositados pouco a pouco para preservar o que ficou embaixo. Quase nada se tem pensado a respeito deste fenômeno. Trata-se provavelmente de uma enorme operação de camuflagem, de equalização de um sinal remoto que perceberiamos facilmente na ausência desta montanha de pequenos agregados. Algo dentro das coisas está sendo disfarçado, escondido a qualquer preço, e até mesmo o extrato de rocha, terra e lava seca onde pisamos, construimos nossas cabanas e parimos nossos filhos parece estar ali para embrulhar alguma coisa que tende ao centro. A agragação infindável da Gravidade, da massa caindo sobre a massa, material abraçando material num apetite sempre renovado, constitui a expressão mais evidente deste principio. É como se um ser primordial, pleno numa gargalhada antiga, percebesse uma fenda em seu corpo ou pus em seus olhos, uma penugem de cor estranha em seu pêlo ou ainda uma má-formação em seus membros. Antes de abismar-se na tristeza, envergonhado com o que percebeu, conseguiu ainda recobrir-se com o que havia a sua volta, apanhando tudo o que deixara escapar de si, pois até há pouco fazia parte de seu corpo perfeito a material de que agora se vestiu – a poeira e a terra, a folhagem e a penugem, o fogo explosivo das estrelas e a escuridão congelada.
(…)
Na verdade, o movimento que giram os gases aquecidos, os choques de massas polares com o ar mais leve e quente que vem dos trópicos, a condensação das tempestades sobre o oceano, todo o sal lançado na atmosfera, a luta das mucosas e das guelras, o sofrimento mesmo das aspirações humanas, dragões espalhando lantejoulas e escamas, vidas ceifadas, pedaços de madeira que naufragam, olhos que a catarata vela, bacia onde moram os sargaços, tudo o que ficou cinzento e floriu depois na primavera, tudo o que o outono equalizou com prata e monotonia, o rosado leve do poente, o ar que enche o peito de alegria, parecem na verdade parte de uma astúcia, gestos furtivos que não compreendemos, sequelas de um corpo enorme e defeituoso que tenta inultimente recobrir-se, sumir debaixo da aparência. O motivo de seu fracasso, provavelmente, deve-se ao fato de a matéria de que se recobre ser ela mesma parte sua, compartilhando sua decepção – também ela quer oculta-se, reproduzindo infinitesimalmente o movimento que deveria ser restrito ao caraço que lhe deu origem.
[do livro O Pão do Corvo, de Nuno Ramos]
[imagem: Sem título, também de Nuno Ramos. Obra que pode ser vista e revista na Pinacoteca de São Paulo]

Leave a comment

Filed under Uncategorized

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s