"Uma presença"

Que sinto? – disse – nada de grave. Sinto… num décimo de segundo uma presença… Espera aí… Há instantes em que meu corpo se ilumina… É muito estranho. De repente, vejo em mim… distingo a profundidade de certas camadas da minha carne; identifico as zonas dolorosas, os círculos, os pólos, os nódulos de dor. Estão vendo essas figuras vivas? Essa geometria do meu sofrimento? Há relâmpagos que parecem de fato idéias. Permitem compreender, daqui, até lá… E no entanto me deixam incerto. Incerto não é bem a palavra… Quando a coisa está para vir, sinto em mim algo confuso e difuso. Criam-se no meu ser certos locais… sombrios, há certas extensões que se delineiam. Então extraio da memória alguma indagação, um problema qualquer… sigo… Mas a dor que aumenta exige toda a minha atenção. Concentro-me! Fico só à espera do gemido… e, logo que o ouço – o objeto, o terrível objeto, tornando-se menor cada vez mais, acaba por desaparecer de minha visão interior…
[Monsieur Teste, de Paul Valéry]
[foto: o artista Ernesto Neto em uma de suas obras]

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