Nem da Vinci

Uma esquina colorida

por Bruno Moreschi
publicado na revista piauí (06/09)
Ilustração de Andres Sandoval

Aos seus alunos nas Faculdades Integradas Barros Melo, em Olinda, o professor e artista plástico Cristiano Lenhardt garante, numa voz tão discreta quanto a cor cinza, que todo ser humano é capaz de fazer desenhos realistas. Basta recusar as firulas da memória e se ater aos contornos do objeto a ser retratado. Ao encerrar a aula, porém, Lenhardt, de 34 anos, deixa para trás as lições acadêmicas e se transforma num homem de vanguarda.

O campo onde exerce sua batalha iconoclasta contra a tradição é a paleta de cores. A tal verdade universal de que o espectro cromático é apenas a mescla, em diferentes proporções, das três cores primárias – azul, amarelo e vermelho – sempre lhe pareceu uma fornida balela.

Lenhardt se formou em 2000, na Universidade Federal de Santa Maria, Rio Grande do Sul. Com o diploma de artes plásticas embaixo do braço, zarpou para Porto Alegre, onde se lançou na primeira de suas experiências.

Durante uma semana, ele e uma trupe de amigos foram de casa em casa tocando a campainha. Quando algum desavisado abria a porta, ele tentava se apresentar: “Somos artistas…” Antes que a porta batesse, seguia adiante – “… e queremos mostrar a nossa obra de arte para toda a sua família.” A maioria das pessoas nem se dava ao trabalho de responder. Porém, como graças a Deus sempre existirão loucos no mundo, onze famílias abriram a porta e franquearam o lar às estripulias dos arteiros.

Lenhardt pedia licença, ia até a televisão e ligava os cabos de um videocassete trazido pelo grupo. Sentados no sofá, pai, mãe e filhos ficavam de olhos pregados no televisor, à espera de alguma revelação. Quando o artista apertava play, a tela era tomada por uma imagem 100% alaranjada. E pronto. Um minuto de quase-laranja. Fim da obra. “Era impressionante. As famílias ficavam fascinadas, muitas vezes emudecidas”, ele conta, sem um pingo de ironia. A hipótese de a mudez ser resultado da perplexidade não lhe passou pela cabeça. “Era como se eles nunca tivessem prestado atenção na beleza de uma cor”, explica.

Josef Albers, pintor nascido na Alemanha, professor da escola Bauhaus, dizia que “no mundo real das cores não há nada a ser inventado. Resta-nos apenas juntá-las numa eterna homenagem”. Acreditando piamente nisso, pintou centenas de telas em que quadrados de cores variadas interagem entre si. “Nada a ser inventado” é uma noção que desagrada profundamente a Lenhart. Dois anos depois de produzir sua ode ao quase-laranja, ele tomou consciência de que só conseguiria peitar as cores primárias se metesse bronca no conceito de realidade.

A oportunidade que sempre esperou surgiu este ano. Os curadores do Paço das Artes de São Paulo viram o seu portfólio e gostaram da audácia. Fizeram-lhe uma proposta: se apresentasse um bom projeto, uma das salas da instituição, localizada na Universidade de São Paulo, seria toda dele ao longo de quase 90 dias. Lenhardt, sem perder um segundo, anunciou aos amigos que inventaria a quarta cor primária.

Pensou, repensou e viu, literalmente, a luz: criaria um projetor frenético, capaz de emitir feixes de cores diferentes a intervalos de menos de um segundo. Fez os primeiros testes na sala de sua casa em Recife, cidade onde mora atualmente. Deu certo. O pessoal da USP adorou o projeto.

Na noite de 24 de abril, no vernissage da exposição coletiva, Lenhardt estava orgulhoso. Antes de responder à candente pergunta sobre a existência ou não de uma nova cor, expôs o problema de um modo que aguçasse a ansiedade do público. Numa das paredes, xilogravuras de cores variadas representavam tentativas fracassadas de encontrar a resposta. Nenhuma cor ali já não fora vista antes. Adiante, uma obra simulava a página arrancada de um livro fictício. Lia-se a interrogação decisiva, atribuída a um personagem anônimo: “Você consegue imaginar outra cor, diferente das primárias ou da mistura entre elas?”

A resposta estaria do outro lado da sala. Numa velocidade galopante, um projetor lança feixes de luz num cubo branco preso ao chão. Numa repetição sem fim, os raios luminosos seguem estritamente a ordem predeterminada: marrom, azul, verde, vermelho, branco, preto, amarelo e roxo. “É uma sucessão de cores complementares”, explica Lenhardt, lacônico. Fica a critério do público decidir se, nos intervalos secretos da metralhadora cromática, ou mesmo no resíduo deixado por ela na retina de quem vê, surge o Santo Graal. Isto é, a nova cor.

Esperidião Consuelo, o segurança noturno do museu, parece ter encontrado a resposta. Durante a noite, mesmo sem a presença dos visitantes, ele faz questão de deixar o projetor ligado. Acha muito bonita a sucessão de marrom/azul/verde/vermelho/branco/preto/amarelo/roxo. E garante: quando se olha para o cubo por mais de um minuto, sem piscar, a nova cor aparece.

De posse do modus operandi, faz-se a experiência. Três tentativas depois, eis que de fato surge algo. Algo que… lembra um pouco o verde… Não, lembra um abacate… talvez a cor institucional das paredes dos manicômios… a lataria gasta de um jipe militar… Sim, quase isso, mas não exatamente…

Na falta da palavra justa, pode-se arriscar uma aproximação, com os devidos pedidos de desculpa: a cor de Lenhardt, admita-se, evoca um pastosamente borocoxô marrom.

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