Imagens de uma batalha

Boas exposições revelam a luta travada pela fotografia para se estabelecer como uma manifestação estética que transcende o caráter documental

Por Bruno Moreschi
publicado na revista BRAVO! (05/09)
crédito da imagem: divulgação

A imagem ao lado não é apenas um blefe. É também o ato apelativo de um paladino da fotografia. Numa noite de 1909, na cidade italiana de Turim, o psiquiatra e fotógrafo nas horas vagas Enrico Imoda esperou a médium esbravejar “fuori!” (fora!) durante uma sessão espírita. Foi a senha para uma mulher desfalecer e um lençol com a imagem de um rosto feminino ser pregado na parede. A cena clicada rodou a Europa com o aviso de Imoda: “Eis a prova de que fotos são ectoplasmas. Com elas, é possível registrar muito além das aparências”. Era para ser um nocaute nos pintores descrentes do poder sensível da fotografia, mas virou gargalhada, já que o fantasma de araque não convenceu a turma do cavalete.

Essa e outras cenas da batalha que a fotografia travou para se firmar como algo além do documental estão na exposição Olhar e Fingir. A mostra, no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo até 28/6, reúne 300 entre as cerca de 50 mil imagens que o curador Eder Chiodetto pinçou da maior coleção particular de fotos do mundo, a do casal francês Michèle e Michel Auer. Chiodetto priorizou raridades. Entre elas, alguns registros feitos com a daguerreotipia — uma das primeiras técnicas de fotografia —, as imagens em placas de vidro produzidas no século 19 e os cliques de 1864 da inglesa Julia Cameron, especialista em retratar seus empregados paupérrimos como figuras religiosas.

Olhar e Fingir é a melhor e mais completa exposição fotográfica em cartaz neste mês. Mas não é a única. Impulsionadas pelo Ano da França no Brasil, ao menos 62 mostras de fotografia estão em museus e galerias de todo o Brasil — no mesmo período do ano passado, o país abrigava cerca de 30. Em meio a tanta variedade, BRAVO! selecionou outras cinco exposições que merecem atenção.

SUPREMACIA FRANCESA
Enquanto almoçavam feijoada antes da abertura oficial da exposição Reflexio, até 23/8 no Santander Cultural de Porto Alegre, três dos seis fotógrafos franceses presentes na mostra discutiam fotografia na companhia de brasileiros. Um representante do Ministério da Cultura do Brasil comentou que o ato de fotografar jamais existiria não fosse o pioneirismo de italianos como Leonardo da Vinci. Para reproduzir corpos de maneira fidedigna, o artista pintava sobre o reflexo dos modelos desenhado nas telas pelas lentes de uma câmara escura. A observação causou mal-estar entre os franceses. “Nicéphore Niépce se remexe agora em seu túmulo…”, resmungou o fotógrafo Eric Rondepierre. Ele referia-se ao seu conterrâneo que, em 1826, fixou pela primeira vez uma cena real num papel de cloreto de prata.

Mesmo diante da insistência de alguns franceses, especialistas evitam consagrar Niépce como o inventor único da fotografia. A fixação de imagens nasceu, sim, na França. Mas, ainda novata, virou uma nômade que se desenvolveu em diferentes regiões da Europa.

Discussões históricas à parte, os franceses ainda podem se orgulhar sem receio das fotos que produzem. Diferentemente dos italianos que criaram obras-primas da pintura no Renascimento e, desde então, perderam a primazia pictórica para outras nações, a França continua sendo referência mundial na fotografia. Reflexio, com 60 trabalhos de fotógrafos contemporâneos daquele país, é uma prova preciosa disso.

Hoje, a França parece não se contentar em apenas ser o berço do realista Henri Cartier-Bresson (1908-2004), um dos ícones do fotojornalismo. A maioria dos fotógrafos franceses demonstra grande preocupação justamente em questionar a veracidade daquilo que a câmera fotográfica registra.

Catherine Rebois, por exemplo, é autora de cenas divididas em partes. Mais do que a fragmentação de um mesmo momento, ela aborda em suas fotografias a impossibilidade de apreender plenamente o real, já que este se encontra sempre em mutação. Olhar a imagem rachada de um lobo (acima) é deparar-se com duas realidades ligeiramente desunidas por milésimos de segundo. “A fotografia é uma forma tão poderosa de expressão que consegue representar sua própria incapacidade de apreender um instante”, explica Catherine, sem esconder o orgulho.

Outro participante da exposição também desafia o realismo. Patrick Tosani transforma o mundo em abstração. No autorretrato ao lado, ele esconde-se atrás de uma folha translúcida com símbolos do alfabeto braille. Não à toa, diz ter-se inspirado nas telas de rostos sem feições do belga René Magritte (1898-1967).


O RETRATO DO ONÍRICO
A judia alemã Grete Stern viveu sob o signo da inovação. Em 1929, aos 23 anos, após ter aulas com Walter Peterhans — responsável pelo primeiro curso de fotografia da Bauhaus, a revolucionária escola de design, artes plásticas e arquitetura da cidade de Dessau-Rosslau —, ela peitou o machismo e abriu um estúdio fotográfico com uma colega. Mas o nazismo a fez fugir da Alemanha para Buenos Aires.

A mudança trouxe-lhe a oportunidade de externar a opressão psicológica sofrida pelas mulheres de seu tempo. Quando acordavam com algum sonho intrigante, muitas das leitoras da revista feminina Idilio, editada na Argentina, os relatavam em cartas endereçadas à redação. Os psicanalistas Enrique Butelman e Gino Germani, sob o pseudônimo de Richar Rest, abusavam das teorias de Sigmund Freud (1856-1939) e Carl Jung (1875-1961) para interpretar os devaneios das moças na seção El Psicoanálisis le Ayudará. Grete era quem ilustrava a página com fotomontagens. “Terei que inventar um novo mundo, com regras que não compactuam com as nossas”, avisou ao editor da publicação.

Depois de ler as cartas, a fotógrafa esboçava as imagens que iriam expressar os sonhos. A seguir, convertia os esboços em colagens. Costumava usar como fundo fotos ampliadas de seu arquivo pessoal. Para representar as figuras femininas, fazia retratos da própria filha ou da empregada doméstica. Das 140 fotomontagens produzidas entre 1948 e 1952 , 46 podem ser vistas até 28/6 no Museu Lasar Segall, em São Paulo.

Chamam atenção não só os efeitos que Grete alcançava em seus trabalhos. Surpreendente também é o fato de ela ter feito tudo sempre sozinha, semanalmente, nos cômodos da casa onde morava. Aos impressionados por sua persistência, citava as virtudes que o protagonista do conto As Babas do Diabo, escrito pelo argentino Julio Cortázar (1914-1984), julgava essenciais para se obter um bom registro fotográfico: “Disciplina, educação estética e firmeza nos dedos”.

Na série A New York Hotel Story, até 21/6 na Caixa Cultural, em São Paulo, a fotógrafa canadense Nathalie Daoust constrói de maneira analógica seu universo onírico. Dessa maneira, modifica por completo os 12 hóspedes do hotel nova-iorquino Carlton Arms que documentou ao longo de dois anos (de 1997 a 1999). Como a mulher da cena acima, seus personagens vivem num mundo tão repleto de camadas que, quando ousam se mexer, o ambiente criado ao seu redor se estilhaça. Nathalie, assim como Grete, segue também a lição do conto de Cortázar a respeito da firmeza dos dedos.

DE OLHO NO OLHAR
Integrante do grupo conhecido como Straight Photography (algo como “fotografia direta”), o norte-americano Paul Strand (1890-1976) fazia retratos cujo foco está no olho humano. Suas 107 fotografias, em cartaz até 5/7 no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro, demostram que poucas cenas são tão magnéticas quando as dele. É o caso do jovem francês na página oposta. Strand posicionou a câmera na altura dos olhos do retratado e optou por um enquadramento simples. Os créditos fotográficos não deixaram para a posteridade o nome do rapaz. Sem problemas. Seus olhos expressivos já revelam uma vida inteira.

O brasileiro Alécio de Andrade fez o caminho inverso de Strand. De 1964 até sua morte, em 2003, ele clicou os visitantes do Louvre, o célebre museu francês. Entre as 12 mil imagens produzidas, um conjunto de 88 pode ser visto até 21/6 no Instituto Moreira Salles de São Paulo. Sua obsessão não era propriamente com o olhar humano, mas com o que era capaz de atraí-lo. O resultado diz muito sobre o quanto as disputas entre o pintar e o fotografar se tornaram obsoletas. A imagem do senhor ao lado, que encosta os olhos na tela do italiano Paolo Caliari (1528-1588), é a prova inequívoca de que tanto a arte pictórica como o registro do espanto que ela produz podem ser obras-primas.


ONDE E QUANDO
Olhar e Fingir. Museu de Arte Moderna (av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, SP, tel. 0++/11/5085-1300). Quando: Até 28/6. De 3ª a dom., das 10h às 18h. R$ 5,50.
Reflexio. Santander Cultural (rua Sete de Setembro, 1.028, Porto Alegre, tel. 0++/51/3287-5718). Quando: Até 23/8. De 3ª a 6ª, das 10h às 19h; sáb. e dom., das 11h às 19h. Grátis.
Os Sonhos de Grete Stern: Fotomontagens. Museu Lasar Segall (rua Berta, 111, SP, tel. 0++/11/5574-7322). Quando: Até 28/6. De 3ª a sab., das 14h às 19h; dom., das 14h às 18h. Grátis.
A New York Hotel Story. Caixa Cultural (praça da Sé, 111, SP, tel. 0++/11/3321-4400). Quando: Até 21/6. De 3ª a dom., das 9h às 21h. Grátis.
Olhar Direto: Fotografias de Paul Strand. Instituto Moreira Salles (rua Marquês de São Vicente, 476, RJ, tel. 0++/21/3284-7400). Quando: Até 5/7. De 3ª a 6ª, das 13h às 20h; sáb. e dom., das 11h às 20h. Grátis.
O Louvre e Seus Visitantes: Fotografias de Alécio de Andrade (Instituto Moreira Salles, rua Piauí, 844, SP, 0++/11/3825-2560). Quando: Até 21/6. De 3ª a 6ª, das 13h às 19h. Sáb. e dom., das 13h às 18h. Grátis.

Leave a comment

Filed under Uncategorized

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s