Raspa do tacho

O museu do Iraque expõe suas obras

por Bruno Moreschi
publicado na revista piauí (05/09)
Ilustração de Andres Sandoval

No dia 23 de fevereiro, o iraquiano Muhsin Hassan Ali, de 43 anos, ligou um tanto envergonhado para os principais veículos de comunicação do mundo, avisando que o Museu Nacional do Iraque iria reabrir. E ouviu de Steven Lee Myers, correspondente do jornal The New York Times em Bagdá, uma gargalhada. “Juro que desta vez é para valer”, ele insistiu.

Diretor do museu há dezessete anos, Muhsin esperava pela resposta. Em duas ocasiões, os jornalistas foram avisados de que a coleção, que já teve 170 mil peças, seria reaberta ao público. Mas era apenas encenação para inglês – ou, no caso, principalmente norte-americano – ver. Na primeira semana de julho de 2003, Paul Bremer, primeiro administrador civil do Iraque após a derrubada de Saddam Hussein, levou os repórteres a um tour pelas salas. Bremer queria mostrar na visita não os tesouros do museu, mas a prova material de que as coisas começavam a se normalizar no Iraque. Nos oito salões que o grupo percorreu – impecáveis – havia poucas obras, embora muito bem expostas. O diretor Muhsin acompanhava a trupe com um sorriso amarelo. Bancava o ator, diante de Bremer. Ir contra os norte-americanos naquele momento significaria sucatear ainda mais a instituição, mantida pelos estrangeiros durante a ocupação.

Mas foi só Bremer se despedir de todos para Muhsin puxar um jornalista da bbc e revelar que aquilo era uma farsa. Mostrou que os banheiros não funcionavam e o teto estava furado – contavam-se seis buracos com o diâmetro de uma melancia. As peças expostas eram uma piada de mau gosto, em comparação com as quebradas, que aguardavam restauração. “E se você voltar amanhã, verá que o museu estará fechado”, garantiu. No dia seguinte, a bbc noticiou a patuscada.

Dezembro de 2007 marcou o segundo ensaio de reabertura – dessa vez a pedido do primeiro-ministro do Iraque, Nouri al-Maliki. Mushin, na ocasião, teve dúvidas: “Como vou reabri-lo se o local está caindo aos pedaços?” E Al-Maliki foi taxativo: “Pouco importa. Precisamos de algo simbólico.” O diretor bem que tentou cumprir seu papel de funcionário obsequioso. Mas pouco antes que os jornalistas saíssem gritou “mahzala!” – “farsa”, em árabe.

Muhsin não temia perder o emprego: “Depois do que passei, compactuar com a mentira seria incoerente demais.” Em 9 de abril de 2003, a multidão empurrou com tanta força as portas de cobre do museu que elas acabaram cedendo. Cerca de 15 mil peças foram levadas embaixo do braço. Se não fosse o empenho de Muhsin nos dias anteriores, o desastre seria maior.

Pressentindo, como todos na cidade, no país e no mundo, que logo Bagdá viraria um caos, Muhsin resolvera agir para salvar pelo menos a parte do acervo que julgava ter valor imensurável. A peça mais importante, uma pedra pontiaguda usada por um homem da caverna, foi para o lugar mais seguro que conhecia: seu cofre pessoal, no fundo do armário dos filhos, escondido por cobertores estampados com coelhos e elefantes. Destino igual tiveram outras vinte preciosidades, dentre elas um vaso de cerâmica datado de 2500 a.C. Os objetos maiores, como a cabeça feminina em cobre de 1,5 metro de altura, foram diretamente para um galpão alugado num local a 30 quilômetros de Bagdá. Peças menores ficaram sob a tutela de amigos próximos. No total, 102 obras saíram do museu.

Durante cinco anos, Muhsin cumpriu a mesma rotina em casa: abria o cofre para ver se tudo estava em ordem, beijava os dois filhos e, só assim, dormia tranquilo. Uma vez por semana, ligava para os amigos e para o rapaz que cuidava do galpão. Num caderno, anotara a lista do que havia retirado. “Decorei o nome e a data de cada peça que estava sob minha responsabilidade. O dia em que as coloquei novamente no museu foi um dos melhores da minha vida”, relembra. Era 13 de dezembro de 2008.

A reabertura do museu aconteceu à revelia do vice-ministro da Cultura Jaber Mohammad Abbas al-Jaberi. Dois meses antes, Muhsin entrara na sala da autoridade avisando que, se o museu não fosse reformado e aberto ao público, ele partiria rumo a Londres, onde mora sua irmã mais velha. O vice-ministro desesperou-se: sabia que ninguém no Iraque conhecia tão bem o acervo – e que, para uma instituição que precisa recuperar grande parte das peças roubadas, tê-lo por perto seria fundamental. O político cedeu. A reforma saiu.

Os jornalistas deram um voto de confiança a Muhsin e compareceram à inauguração. O diretor do museu fez questão que os convidados entrassem em todas as salas. Dessa vez, não havia engodo. “Cheguei a dar descarga nos sanitários para provar que tudo estava em perfeita ordem”, conta. Para comemorar, contratou uma banda especializada em marchinhas iraquianas e dançou ao som da música como uma criança. Ciente, porém, de que estabilidade, no Iraque, não é bem durável, Muhsin ainda paga o aluguel do galpão que abrigou as obras maiores.

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