Veneza é aqui

No alto de um morro, a salvação dos mascarados

por Bruno Moreschi
publicado na revista piauí (06/09)
Ilustração de Andres Sandoval

2002 foi um ano trágico na vida de Carlos Gaudin, de 56 anos. Argentino radicado no Brasil, naquele ano ele perdeu um emprego de 23 anos como representante comercial de produtos médicos. Separou-se da mulher. E o insuportável: um tumor cerebral levou seu filho de 7 anos.

Num jantar na casa dos padrinhos do filho falecido, Gaudin, destroçado, preferiu a solidão de um sofá de canto. Em certo momento, levantou os olhos e viu, à sua frente, centenas de rostos tão tristes quanto o seu. “Gostamos de ópera”, contou a amiga. “Há décadas colecionamos máscaras. Principalmente as venezianas.”

Até ali, Gaudin pensava seriamente em escapar do mundo. Admirador dos ensinamentos de Sidarta Gautama, primeiro entraria para o mosteiro Theravada, tradicional ordem budista no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Em seguida, viajaria para a matriz, no distante Sri Lanka, e terminaria a vida como monge. Mas o Pierrô melancólico que viu o fez mudar de idéia.

No dia seguinte ao jantar, correu para o Google. Dezenas de sites depois, sabia muito sobre a história das máscaras de Veneza, mas pouco sobre como fazê-las. Encontrara apenas sugestões triviais para a confecção de máscaras simples. Aprendeu que a tradição surgiu no século XVII, como um modo de a nobreza se disfarçar durante o Carnaval e se divertir em meio à plebe. Mas e a técnica necessária para produzir um belo Arlequim com guizos? Procurou nos livros e nada encontrou também.

Lançou-se à práxis. Tentou desenvolver técnicas para moldar a argila, o gesso e o papelão, mas nada dava certo. Estava prestes a jogar a toalha quando, finalmente, numa de suas peregrinações por sebos de São Paulo e do Rio, encontrou a obra em espanhol Cartón Piedra. Era a chave. Ali, ensinava-se a esculpir a face humana em argila e produzir um molde em gesso; a acrescentar papel; a retirar do molde a peça em papelão e, por fim, a pintar a máscara. Tratava-se da técnica de cartapesta – o papel machê -, utilizada havia séculos pelos italianos. O livro era tão soberbo, que Gaudin tratou de buscar outros exemplares pelo mundo, caso o dele se perdesse. Encontrou três.

Desde 2004 ele se isola no alto de um morro a 15 quilômetros de Joanópolis, cidade de 11 mil habitantes da região de Bragança Paulista. Ao longo das sinuosas curvas de terra que levam à sua casa, passa-se por uma fazenda que vende pôneis a 450 reais e por um altar modesto, nas margens da estrada, dedicado a santa Inês, padroeira da castidade e dos jardineiros. “Veneza é mais longe”, responde o artista aos que reclamam da dificuldade de chegar ali. Quem finalmente alcança o portão do Atelier de las Máscaras, um sítio de 63 mil metros quadrados, é recebido pelas batidas de asa de Peter e Mary, o casal de gansos de estimação.

Sobre a mesa que usa para a secagem das máscaras, Gaudin deixa à vista um modelo trazido de Veneza. “Experimente e veja como é desconfortável”, propõe – e tem razão. Ele revela então por que as suas são superiores: “Uso menos gesso. Fica mais flexível e menos incômodo no rosto.” Como todo mestre artesão, Gaudin dá muita atenção às pequenas delicadezas. Para evitar que, ao entrar pelo orifício dos olhos, a luz rebata no interior da máscara e ilumine traços indesejáveis de idade, usa um preto fosco no verso.

Os preços variam de acordo com o estilo. As meias máscaras, aquelas que cobrem apenas os olhos e parte do nariz, saem por 150 reais. As mais complexas, como a de um curinga com fios de algodão roxo nas pontas do chapéu, podem chegar a 800 reais. “Caro comparado a quê?”, contrapõe quando reclamam do preço. “Na Itália você vai gastar no mínimo 200 euros por um modelo simples. E quanto às chinesas, feitas de plástico… Melhor nem comparar. Aquilo é lixo.”

Gaudin trabalha com zelo. De janeiro a maio, aceitou apenas 38 encomendas. Promete a entrega em no máximo 60 dias. É preciso retomar a estradinha de terra para pegar a máscara pronta. “Não entrego mais via Sedex”, diz. Triste, relembra uma Colombina que chegou esmagada ao destino, apesar do plástico-bolha e dos avisos de que se tratava de um objeto frágil.

Os clientes estão espalhados por todo canto. Vão de senhoras hospedadas em pousadas da região a paulistanos excêntricos que querem fazer bonito entre gente descolada. Existe até a possibilidade de encomendar uma máscara de Pierrô, Cleópatra ou Zeus personalizada com o rosto do próprio cliente. Imagine-se o frisson que causará aquele rapaz de boa estampa ao entrar no salão com a máscara de si mesmo em forma de deus grego… (Pedidos podem ser feitos no site atelierdelasmascaras.com.)

Em agosto de 2005 o furacão Katrina destruiu Nova Orleans, e, junto com boa parte da cidade, foi-se também o único ateliê da região que produzia máscaras venezianas. Muitas foram encontradas meses depois, num lamaçal a quilômetros de distância. Traumatizado, o artesão local decidiu largar o ofício. Quando o Carnaval se avizinhou, os moradores ficaram desesperados: máscaras venezianas fazem parte da tradição da cidade. Se não bastasse a tragédia, agora havia o risco de não encontrarem o desafogo de uma folia completa.

A prefeitura de Nova Orleans entrou em contato com Gaudin. Ele se sentiu lisonjeado, mas, com os chineses em mente, declinou educadamente: “Jamais conseguiria dar conta do serviço e manter a qualidade.” Hoje, Veneza fornece máscaras para Nova Orleans.

Mas até quando? Budista sensível à desordem do mundo, Gaudin não pára de pensar no aumento do nível dos oceanos. Veneza corre perigo – é um dos seus pesadelos. Saber que Pierrôs, Colombinas, Polichinelos e até lascivos Casanovas estarão a salvo num ateliê brasileiro a 1 280 metros de altitude não lhe servirá de consolo.

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