Eles não usam verde e amarelo

Os jovens artistas brasileiros não se preocupam com identidade nacional e têm visão madura da política. BRAVO! mapeia as características da nova geração

Por Bruno Moreschi
publicado na revista BRAVO! (03/09)

O artista pop Andy Warhol (1928-1987) era um mestre das frases de efeito — e muitas de suas afirmações eram apenas isto: o efeito pelo efeito. Como: “Tenho uma interpretação muito livre de trabalho, porque acho que estar vivo já dá tanto trabalho que não queremos fazer mais nada”. Às vezes, no entanto, acertava e até se revelava profético. Três anos antes de sua morte, indagado sobre o futuro das artes visuais, respondeu: “Os jovens saberão incrementá-las”. Pelo menos no que diz respeito aos novos artistas brasileiros, a previsão de Warhol é realidade. Em cartaz até 10 de maio no Itaú Cultural, em São Paulo, a mostra Rumos Artes Visuais apresenta 45 artistas pouco conhecidos, resultado de um primoroso trabalho de seleção de 1.617 inscritos realizado pelo curador Paulo Sérgio Duarte e equipe. A exposição provoca reflexões sobre a produção dos jovens artistas brasileiros. Para identificar tendências, a reportagem de BRAVO! visitou também 12 ateliês de outros jovens artistas e, por telefone, entrevistou outros dez de diferentes cidades brasileiras.

A primeira constatação: vivemos um momento em que os ponteiros da criação artística são fugazes. Para os afoitos por uma nova Mona Lisa que custa a chegar, o sorriso não virá. A noção de obra-prima foi relativizada. Quando artes visuais eram chamadas de belas-artes, a sina de anos de pesquisa e de suor do artista era louvada — quando não era considerado imprescindível. Agora, o que importa é a representação do desassossego momentâneo do criador. A imagem ao lado sintetiza o paradigma. Lívia Moura, de 22 anos, cria um emaranhado tal qual um monstro desorientado. Para isso, utiliza sacolas plásticas. A prova de que o importante agora é o “como”, não mais “o quê”. Nas páginas seguintes, mais características da nova geração de artistas brasileiros.

1. Eles desprezam a política dos “mocinhos e bandidos”

Na década de 1970, o cenário político polarizado dava margem à arte engajada. O carioca Cildo Meirelles produziu algumas de suas obras como reação ao que era chamado, na época, de dependência do país em relação ao capital estrangeiro. Em Inserções em Circuito Ideológico, ele escreveu sobre garrafas de Coca-Cola a frase “Yankees, go home” e devolveu à circulação. No mundo globalizado de hoje, em que se sabe que a política é bem mais complexa do que uma luta de bandido e mocinho, a maioria dos novos artistas não parece preocupada com o assunto — o que, de antemão, não pode ser argumento para taxar a arte atual de boa ou ruim. Uma coisa é certa: o mesmo individualismo que deixou as artes visuais menos sensíveis às mazelas do dia-a-dia tornou-a também espetacularmente mais diversa.

Hoje, é cada um por si. A paulistana Márcia de Moraes, 28 anos, acredita na eficácia de inocentes lápis de cor e canetas BIC para colorir cartazes e cadernos da marca Moleskine. Depois de se tornar mestre na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ela descobriu que o material rotulado de pueril é o mais eficiente para produzir formas estranhas em cores sutis. A imagem acima mostra que a opção funciona (é interessante notar que, no passado, na Arte Povera, usar material de segunda linha era importante para veicular uma mensagem política). No caso, canetas foram apenas a escolha de Márcia.

Todavia, há algo mais ilustrativo em sua trajetória. Nunca nossos artistas estiveram tão embrenhados no mercado das artes. Oportunistas sempre existirão, mas isso não significa que todos merecem a alcunha só por se interessarem em vender mais e a um preço melhor. “No mundo de hoje, os limites éticos ficaram tênues, mas continuam visíveis”, lembra-nos a escritora polonesa Wisława Szymborska.

Márcia pinta no começo e no fim do dia. Nas outras horas, trabalha como assessora de comunicação da mais poderosa galeria de São Paulo, a Fortes Vilaça. Em outros tempos, um bando esbravejaria que a jovem jamais poderia se relacionar tão diretamente com o mercado das artes. Bobagem: sua primeira individual ocorrerá em agosto num espaço público, o Centro Maria Antônia, em São Paulo. Cuidadosa, jamais mostrou os trabalhos à chefe, a marchand Marcia Fortes. “Prefiro que ela veja o trabalho exposto. Seria de bom-tom”, avisa.


2. Eles têm carreiras rápidas

Para entendermos como o tempo é outro na arte brasileira, basta nos atermos a dois artistas contemporâneos, mas que começaram carreiras em períodos diferentes. Para o pernambucano Tunga, 49 anos, tornar-se um dos maiores artistas da América Latina foi um subir cuidadoso de degraus. Apesar de ter começado nos anos 70, seu nome começou a receber destaque bem mais tarde, quando expôs na Bienal de Veneza de 1982. Em seguida, vieram exposições em Tóquio, Bruxelas e Chicago, até culminar, em 2005, na consagração. Na pirâmide do Louvre, ele expôs um enorme esqueleto descansando numa rede. Foi a primeira vez que o local recebeu o trabalho de um artista contemporâneo.

No mesmo ano em que Tunga invadia Paris, Thiago Rocha Pitta, jovem artista de 28 anos, não deu um passo importante, mas um salto imenso. Convidado a expor no anexo do MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York, ele apresentou o vídeo Ponte Aérea em Tempo Rodoviário, em que filma da janela do avião um voo de São Paulo ao Rio de Janeiro. Os curadores gostaram, e o trabalho agora faz parte do acervo do museu norte-americano. A rapidez impressiona. Diferentemente dos caminhos tortuosos de Tunga, Pitta começou a carreira em 2001 e levou apenas quatro anos para ter um trabalho conhecido internacionalmente — e, mais do que isso, exibido num dos templos da arte contemporânea.

Diante de carreiras tão fulminantes, fica a questão: essa arte que desponta tão rapidamente ficará? Só o tempo vai dizer. Entre tantas novas promessas, é provável que sobrevivam apenas aqueles que conseguirem manter a qualidade do trabalho mesmo diante da pressão de seus galeristas ávidos por novidades. Protagonista da seção Nossa Aposta de BRAVO! em outubro do ano passado, o paulistano Rodolpho Parigi, 31 anos, abriu em fevereiro sua primeira individual, na Galeria Nara Roesler, com praticamente todos os quadros expostos já vendidos. Os preços variaram de R$ 23 mil a R$ 45 mil, valor considerado excepcional para um artista que ainda está começando. Engana-se quem pensa que ele pretende se acomodar com a explosão de formas rentáveis. Na tela Concrete Blonde, um borrão proposital sugere que Parigi está prestes a se reinventar. Uma atitude imprescindível para continuar em destaque num mundo artístico em que a novidade surge a cada segundo.

3. Eles não se preocupam com a tal “identidade brasileira”


O passaporte atolado de carimbos é praticamente regra entre os artistas que hoje despontam nas artes visuais daqui. Mas sair do Brasil está longe de ser um zanzar mochileiro pelo mundo. Trata-se de algo mais formal, oportunidade acessível àqueles que estudam nos cursos de artes das universidades. Essas instituições possuem programas de intercâmbios mundo afora. O curso de Artes Plásticas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), por exemplo, dispõe de convênios com 25 universidades internacionais — a maioria com ajuda financeira aos contemplados.

Com bolsas de estudos, a artista plástica Alice Miceli, 28 anos, perambulou 35 mil quilômetros — restam apenas mais 10 mil para uma volta completa ao planeta. O sotaque carioca com rigidez alemã e um leve assobio francês denunciam que a moça não para. Aos 19 anos, foi para Paris estudar artes plásticas; zarpou para a Finlândia numa residência artística financiada pela Unesco; deu na telha de ir ao Camboja filmar por 15 dias para, logo depois, aproveitar um workshop na Indonésia. Alice agora mora em Berlim. “Não faço ideia para onde vou depois disso”, assume a artista nômade.

Com artistas mais viajados, a afirmação (ou o questionamento) da identidade nacional já não é preocupação para a arte brasileira. Em 1928, a pintora modernista Tarsila do Amaral (1886-1973) presenteou o escritor Oswald de Andrade com Abaporu, quadro de um gigante sob um sol escaldante. Ali estão a pele bronzeada da figura central, o sol e o verde tropical.

Hoje, os símbolos nacionais sumiram. Mas ficou o apreço pelas cores vibrantes. Beatriz Milhazes, nossa pintora mais famosa em atividade, chama atenção por essa característica pictórica — repetida por incontáveis artistas que estão começando. Se hoje tivéssemos um Carlos Drummond de Andrade diante de uma obra de Beatriz, ele certamente apontaria os mesmos elementos que destacou nas telas de Tarsila: “O amarelo vivo, o rosa violáceo, o azul pureza, o verde cantante”.

Laura Erber, de 27 anos, que estudou artes na Alemanha, filmou um belo vídeo em que registra a sobrevivência de um peixe num livro da poeta argentina Alejandra Pizarnik. O trabalho poderia ter sido feito por um polonês, um chinês ou qualquer outro artista do mundo. “Não me sinto pressionada para usar chavões brasileiros”, garante, sustentando a tese de que nossa arte agora alça voos sem precisar da ajuda de araras.

4. Eles são versáteis, mas a pintura resiste

Desde que, em 1913, o francês Marcel Duchamp (1887-1968) assinou como obra de arte uma roda de bicicleta cravada num banco, a ideia que arte é o que o artista chama de arte não é mais novidade. Agora, porém, a liberdade não pretende chacoalhar o mundo das artes. O artista hoje quer apenas encontrar o suporte que melhor transmita a mensagem almejada.

Quem fez isso de forma magistral no Brasil foi o carioca Hélio Oiticica (1937-1980). Ele começou com a pintura tradicional, depois partiu para telas monocromáticas e flertou com o espaço quando criou placas de madeira penduradas por fios transparentes. Em seguida, criou uma arte mais arquitetônica ao bolar os penetráveis, espaços em que o espectador caminha por labirintos para experimentar a força da cor pintada nas paredes, a textura da água que emana do chão, entre outras sensações. Eram meados da década de 1960 e, diante de tamanha variedade, ninguém sabia como chamar o artista. Pintor? Escultor? Arquiteto? Quando Oiticica apareceu no programa do Chacrinha, o apresentador pensou, pensou e lembrou dos parangolés, vestes criadas por ele que, quando dispostas no corpo, faziam do ser humano um suporte da arte. Certo do que anunciava, Chacrinha chamou Oiticica de “costureiro”.

De relance, pode-se reviver erroneamente o clichê que vez ou outra cerca as artes visuais: o de que a pintura morreu. Na década de 1980, discurso semelhante também foi recorrente. Artistas como Adriana Varejão combateram a regra imposta com tamanho afinco que hoje suas telas a óleo são o que há de mais valorizado na arte nacional — uma obra sua chega a US$ 200 mil.

A pintura resiste e vive bem. Mas não é a mesma do passado — a crítica Angélica de Moraes chama isso de “pintura reencarnada”. A tela acima, de Flávio Araujo, 29 anos, mostra bem essa transformação. Ele usou a pintura para reproduzir a sequência de um menino de rua que viu estampado num jornal. O trabalho lembra a fotografia. Isso até Araujo borrar de branco o rosto do garoto e transformá-lo numa pintura abstrata.

Diante da infinidade de técnicas, ver artistas optando pela pintura é sinal de que as artes visuais brasileiras não só vivem um momento múltiplo. É tempo de liberdade absoluta, sem limitação ou preconceito. Nesse vale-tudo, não há o que temer. Seja como for, continua válida a máxima de que arte boa é aquela que impressiona nossos olhos a ponto de eles relutarem em piscar.

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One response to “Eles não usam verde e amarelo

  1. Bravo!beleza de textobeijoMaRegina

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