A quebra do todo

O artista mexicano Damián Ortega desmontou um caminhão para nos mostrar que o mundo ainda é feito de partes

Por Bruno Moreschi
publicado na revista BRAVO! (03/09)
Crédito da imagem: Estúdio Eduardo Ortega

Damián Ortega não monta quebra-cabeças. Ele desagrupa-os na ânsia de mostrar àqueles que os construíram que a imagem é feita sempre de pedaços. Em cartaz até 17 de maio no Galpão Fortes Vilaça, em São Paulo, Ortega desta vez usou um caminhão. Como se suas peças flutuassem na galeria, ele separou algumas das partes do veículo e as pendurou em cordões transparentes e finos.

Materialista é o nome da obra. Também é como a modalidade de caminhão que lhe serviu de modelo é chamada no México. E materialista é tudo o que Ortega não é. Em 2004, num museu da Filadélfia, o artista desmontou um fusca, sua obra mais conhecida mundo afora. Na época, Carol Vogel, crítica de artes plásticas do jornal New York Times, resumiu a estripulia: “Ortega desintegrou o mundo em que vivemos. Difícil será reagrupá-lo depois da ousadia”.

Desmontar um fusca e um caminhão foi a maneira que Ortega encontrou para nos avisar: fomos cegados pelo design funcional dos objetos que nos cercam. Sua luta é para reacender algo que esquecemos. Nossos computadores, livres de arestas, sempre em formatos aprazíveis, parecem orgânicos. Mas não são. São formados por peças, produzidas uma a uma e reunidas de forma tão hermética que o ato de fazer já não é evidente. O mesmo vale para todos os objetos industrializados que nos cercam. Quando Ortega desfaz um veículo, regride um século, época em que os primeiros Ford-T apareciam nas ruas. A geringonça de quatro rodas era assumidamente desnuda, pouco temerosa de mostrar sua carroceria.

De 1919 a 1933, a escola alemã Bauhaus sonhou com um mundo em que o design de qualidade fosse acessível a toda a população. A utopia se desvirtuou em lojas com saldões de móveis e utensílios domésticos. Compramos sem nos lembrarmos do valor do trabalho que cada peça carrega. E o mais grave: esquecemos completamente quem as fez. O fazer não possui uma ética própria. Mão-de-obra chinesa paga com centavos de dólares? Pouco importa.

Na abertura da exposição de Ortega, Nair dos Santos, a copeira do Galpão Fortes Vilaça, foi mais certeira que um Giulio Carlo Argan, historiador de arte conhecido pela precisão ao falar de trabalhos artísticos. Enquanto servia água aos visitantes, ela comentou meio desconfiada que as peças penduradas de Ortega pareciam “algo que não se aguentou e explodiu”. Exato. É como se cada objeto contivesse uma granada em seu cerne e construíssemos sobre ele camadas múltiplas, como se quiséssemos esquecer que o perigo da explosão é iminente.

Onde e Quando
Materialista, de Damián Ortega. Galpão Fortes Vilaça (rua James Holland, 71, Barra Funda, São Paulo, SP, 0++/21/3392-3942). Até 17/5/2009. De 3a a 6a, das 10h às 19h; sáb., das 10h às 17h. Grátis.

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