Vladimir Putin, o pintor

Primeiro-ministro russo faz quadro em 15 minutos e desperta o comentário irônico de Robert Hughes, um dos maiores críticos de arte em atividade

por Bruno Moreschi
publicado na revista BRAVO! (03/09)
Crédito da imagem: Anatoly Malstsev/EPA/Corbis/Alexandre Duret-Luzt

Goste-se ou não de seus quase dez anos no poder, há de se concordar que Vladimir Putin prima pela versatilidade. O ex-presidente e atual primeiro-ministro da Rússia já integrou a KGB, agência de espionagem da antiga União Soviética, e lançou um DVD ensinando golpes básicos de judô, esporte em que é faixa preta. Nada disso, porém, causou mais espanto do que sua entrada no mundo das artes visuais. “Quero pintar um quadro”, declarou à agência de notícias Pravda em dezembro de 2008.

Natalia Kournikova, dona de uma galeria em Moscou que leva seu nome, ouviu a notícia e não perdeu tempo. No dia 17 de janeiro, promoveu um leilão beneficente em São Petersburgo com telas produzidas por celebridades russas que, até então, desconheciam a arte de pintar. Putin, claro, mandou uma obra. Em apenas 15 minutos, ele garante, esboçou com tinta a óleo uma janela amarela e cortinas brancas. Depois, assinou em russo algo que pode ser traduzido como “V Putin” e que ocupa quase um quinto do quadro. A inspiração teria vindo de uma cena descrita no livro Noites na Granja ao Pé de Dikanka, de Nikolai Gogol, baseado no folclore da Ucrânia — ironicamente, o país com que a Rússia briga há anos pela distribuição de gás.

Arrematada por US$ 1,1 milhão, a tela se tornou a obra artística mais cara já leiloada em território russo. Em 2002, por exemplo, a última versão do Quadrado Negro, de Kasimir Malevich (1878-1935), alcançou o preço de US$ 1 milhão. A receita do leilão será distribuída entre dois hospitais infantis.

O episódio, que tinha tudo para despertar a pirraça dos experts mundo afora, acabou gerando alguns elogios. O crítico Richard Dorment, do jornal britânico The Daily Telegraph, foi o primeiro a confessar seu apreço: “Gosto de como a janela e a cortina cercam o azul. Com poucas informações, Putin construiu um universo complexo”. No New York Times, o jornalista especializado em artes plásticas Randy Kennedy escreveu um pequeno comentário de menos de dez linhas terminando com um incentivo: “Putin poderia tentar pintar outras telas”.

Já o célebre crítico australiano Robert Hughes, conhecido por suas observações ácidas e precisas, fez o esperado: optou pela ironia ao falar sobre o quadro na TV britânica BBC. “As pinceladas de um líder que flerta com a tirania me surpreenderam. São muito doces, têm um toque marcado pelo feminino.” Por meio de seu porta-voz, Putin respondeu que não se considera tirano. E prometeu pintar uma segunda tela.

Leave a comment

Filed under Uncategorized

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s