O ziriguidum de Rachmaninoff

Uma releitura do Carnaval

por Bruno Moreschi
publicado na revista piauí (02/09)
Ilustração de Andres Sandoval

Pelo terceiro ano consecutivo, o engenheiro mecânico aposentado Manoel Mello, de 69 anos, delegou ao filho mais velho, Jaime, a boa ordem do salão de um edifício nos Jardins, em São Paulo. O resultado, para não fugir ao padrão, foi uma decoração austera. Recobertas por toalhas cinza, duas mesas redondas foram postas diante da televisão de 32 polegadas e de um equipamento portátil de som. Para beliscar, amendoins japoneses, e olhe lá, acompanhados no máximo de água e suco de laranja concentrado. “Ninguém está interessado em se empanturrar”, explicou Jaime. “O pessoal quer mesmo é Carnaval.”

O que não seria uma explicação ruim, se o grupo prestes a ocupar o salão não odiasse o tríduo momesco com todas as forças. Com todos os ouvidos, na verdade.

Mello entrou no elevador e desembarcou no salão com um sorriso eufônico, por assim dizer. Para ele, o segundo sábado de janeiro se tornou o dia mais afinado do ano, o dia de consertar o horror de cuícas, bumbos e repiques. Mello é recebido com palmas entusiásticas por dezesseis melômanos de idade entre 39 e 78 anos. “Bem-vindos ao Carnaval mais erudito do Brasil!”, saúda. “Do mundo!”, corrige um carnavalesco. Mello gosta da errata e a incorpora imediatamente: “Do mundo!”, repete.

As regras do concurso que os trouxe aqui são relativamente simples. O primeiro passo, dado um dia depois de terminado o Carnaval anterior, consiste em distribuir, por sorteio, as imagens do desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro transmitidas pela Globo. Os sorteados são grupos de três pessoas, força-tarefa que pouco se modifica de um certame a outro, em razão de amizades seladas há décadas.

O segundo passo — sem dúvida o mais crucial — dá a cada trio praticamente um ano para alcançar a perfeição e ser consagrado no mês de janeiro. É o seguinte: com a tecla mute acionada, eles devem descobrir uma composição clássica que se encaixe no giro das baianas ou no rebolado das mulatas. Trata-se de substituir a tragédia sonora de um samba-enredo pelas harmonias sublimes do repertório erudito. “Queremos mostrar que respeitamos o Carnaval”, explica Mello, cujo tom conciliador não impede o azedume de sua alma toda vez que ela escuta algo semelhante a “Bum bum paticumbum prugurundum”.

Cada grupo seleciona uma sequencia contínua de quatro minutos e se põe de orelhas em pé. Tudo deve ser levado em conta: da celebridade desengonçada diante da bateria (que exige algo cômico, no estilo do Quebra-Nozes de Tchaikovsky) ao estilo rococó dos carros alegóricos (Música para Fogos de Artifício, de Händel, infalível).

O concurso está em sua sexta edição, mas ainda carece de nome oficial. Alguns tentaram emplacar Cadenza Carnavalesca, mas o sufixo -esca pareceu a muitos de um mau gosto sonoro dilacerante.

É chegada a hora. Emanoel Castanheiros, de 78 anos, dá um passo à frente. Cabe a ele organizar os trabalhos e servir de árbitro, amparado no currículo de tricampeão (2002, 2003, 2004). Castanheiros largou a competição há dois anos, quando recebeu a segunda ponte de safena. (Seu coração bate mais forte por Johann Sebastian Bach.)

Como um juiz de boxe antes do início da luta, ele repete em alto e bom som o conjunto de regras. Se descumpridas, elas podem levar à expulsão do bloco infrator, como lamentavelmente ocorreu em 2000. Imagem e música não podem ser editadas, mas na ocasião um trapaceiro acelerou a minimalista Eight Lines, do americano Steve Reich, em busca de uma melhor sincronia com um rebolado qualquer. Foi sumariamente convidado a se retirar.

Reiterado o ponto, Castanheiros conclui: “Ademais, sem brigas. Repito: sem brigas.” A insistência não é retórica. Manda o regulamento que o vencedor seja escolhido por unanimidade, imposição espinhosa que, ao gerar bate-bocas, desencadeou, em 2001, um fatídico safanão na orelha esquerda de Mello, desferido por um senhor colérico que nunca mais voltou.

Esta é a primeira vez de João Gomes, 55 anos, membro da equipe dos veteranos Carlos Rocha e Humberto Zerbinni, vencedores do ano do bofetão. Meio a troco de nada, Gomes comenta: “Acho a gravação de La Damnation de Faust pela London Symphony Orchestra um deleite dos deuses.” Como se esmerasse em enrolar a língua para impressionar com seu inglês, recebeu um olhar desconfiado de Zerbinni, que mais tarde comentaria: “O rapaz ainda não percebeu que já superamos a fase do desbunde.”

Mello convoca o primeiro grupo. O trio de senhores faz um breve apanhado das escolhas sonoras e visuais que apresentarão a seguir. Ato contínuo, reclamam ao se abaixar para pôr o CD no aparelho de som. (Ouve-se um discreto estalo de coluna, acompanhado de um discretíssimo “Ai…”)

Logo há consenso de que a Sinfonia n° 93 de Haydn não foi feita para o compasso da Beija-Flor de Nilópolis. Reprovação severa. Mas, para alívio geral, segue-se um conveniente casamento entre o Salgueiro e o Concerto para Violoncelo de Dvorak. Já a Bachiana n° 1 de Villa-Lobos soou a modinha saliente quando Viviane Castro, modelo, desfilou pela São Clemente com um elaborado tapa-sexo de 4 centímetros. Alguma gaiatice se espalhou pelo salão, mas nada que justificasse troféu.

Palmas mesmo vieram quando as baianas do Salgueiro rodopiaram ao som do Opus Clavicembalisticum, obra pianística do compositor contemporâneo inglês Kaikhosru Shapurji Sorabji. Restando um só trio para se apresentar, o clima era de já-ganhou. Ninguém acreditava numa nova surpresa.

Mas ela veio. Fechando o desfile, o bloco de Mello, Jaime e Leonardo Salveiro apresentou um combinado espantoso. Jaime explicou: “Optamos pelo tudo ou nada: uma combinação arriscada de Viradouro com o Concerto n° 3 para Piano e Orquestra de Rachmaninoff.” Quatro minutos e treze segundos depois, visivelmente emocionados, todos aplaudiram de pé. Parecia que lá na Rússia, no longínquo 1909, Rachmaninoff se inspirara no enredo É de Arrepiar para compor uma obra que ainda hoje assusta os pianistas.

Mello, Jaime e Leonardo Salveiro levaram para casa, cada um, um exemplar do livro Anthology of Classical Music, de Philip G. Downs, comprado no site da Amazon por 125 dólares, valor rachado entre todos. “Um dia ainda instalo um alto-falante nos postes e toco a Nona de Beethoven duas vezes por dia”, sonha alto Manoel Mello.

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