A escala humana

Moldado por Oscar Niemeyer, o gosto brasileiro acha que arquitetura é sinônimo de gigantismo. Isay Weinfeld, o mestre dos espaços intimistas, desafiou essa máxima – e se tornou a nova estrela das pranchetas

por Bruno Moreschi
Publicado na revista BRAVO! (01/09)

Na defesa da singularidade, Isay Weinfeld diminuiu a escala. Até então, como crença incontestável, o gigantismo geográfico do Brasil inspirou uma arquitetura que flertava com o monumental, erguida por nomes como Oscar Niemeyer, João Batista Vilanova Artigas e Paulo Mendes da Rocha. Agora, pela primeira vez, um arquiteto brasileiro se destaca por romper com a tradição e pensar o espaço de maneira intimista. “Minha luta é contra a pretensão”, diz Weinfeld, resumindo suas ambições.

Cada vez mais, o arquiteto paulistano de 56 anos cativa olhares mundo afora. Em 2008, o projeto arquitetônico de Weinfeld para a Livraria da Vila, no bairro paulistano dos Jardins, recebeu menção honrosa em duas importantes premiações, a norte-americana Spark! e o World Architecture Festival, de Barcelona. A ideia de fazer uma livraria cujas portas são prateleiras de livros que se abrem simulando o virar de páginas embasbacou a imprensa européia. Palavras do jornal britânico The Times: “Este brasileiro constrói casas. Até mesmo quando o projeto é uma livraria, loja ou hotel de luxo, seu apreço pelo ambiente familiar reina absoluto”.

O quarto volume do guia Architecture Now (editora Taschen, 575 páginas) traz Weinfeld na companhia de nomes consagrados como o inglês David Chipperfield, o holandês Rem Koolhaas, além do próprio Niemeyer. “Ele está entre os meus dez arquitetos favoritos”, enaltece o organizador da publicação, o historiador de arte francês Philip Jodidio. Diante do crescente reconhecimento, o elogiado garante que está feliz com sua pequena equipe de 20 arquitetos — o escritório de Rem Koolhaas, por exemplo, tem cem profissionais.

Notável pelo projeto no espaço privado, Weinfeld faz obras que jamais foram vistas, quanto mais compreendidas, por quem não faz parte do seleto grupo que visita as dependências de seus clientes abonados. Entre tantos, um milionário que lhe pediu uma mansão no paradisíaco arquipélago das Ilhas Virgens caribenhas. Daí a importância do livro Isay Weinfeld, lançado pela Bei Editora, primeira de duas publicações que pretendem catalogar seus principais projetos. Em 200 fotografias, é possível perceber a unicidade de 15 casas, 11 delas em São Paulo, duas no Guarujá, uma em Brasília, além do restauro de uma fazenda em Campinas. Quando a editora lhe pediu textos para a publicação, foi sucinto: “Tive enorme prazer em projetar estas casas. Até onde sei, os proprietários estão felizes nelas. Isto não é pouco. Isto já me basta”.

Tédio e Deselegância
Numa comedida camisa de listras azuis, Weinfeld entra no Hotel Fasano de São Paulo. Contempla a própria criação. Um prédio de 64 quartos numa área de 10.308 metros quadrados. Num claro contraponto a tantos “hotéis de butique” passageiros, este foi feito para durar. Fugindo do espaço central, preenchido por sofás caramelo à frente, bar disfarçado ao fundo e lareiras nas paredes laterais, o arquiteto prefere sentar-se a uma esquecida mesa redonda de canto.

Weinfeld é um homem que agradece três vezes o café trazido pelo garçom. Poucas coisas o irritam mais do que a falta de bons modos das pessoas. Tempos atrás, um casal almejava morar numa casa pensada por ele. Os três se reuniram uma, duas, três vezes. Por fim, ficou insuportável para Weinfeld aguentar os frequentes palavrões do casal. Sentenciou um não à proposta de trabalho, na certeza de que jamais seria o construtor de um lar de desavenças. Sua posição privilegiada entre os arquitetos brasileiros faz com que possa soltar negativas. No ano passado, um milionário árabe, encantado com a foto de uma casa que Weinfeld projetou, fez questão de ligar pessoalmente para ele. Pagaria quanto fosse preciso para uma residência idêntica. Como sempre faz, Weinfeld tentou convencê-lo a ter uma casa pensada sob medida. Um lar único no mundo, como são as pessoas. “Eu quero essa”, rateou o abastado. O arquiteto caiu fora.

Ao falar de suas influências, Weinfeld não cita outros arquitetos. Ele prefere gente de outras áreas, como cinema e música. “Quero fazer casas como Kubrick fez filmes. Uma grande ficção científica, um grande terror, um grande filme de guerra.” Como o cineasta americano, ele tem horror à repetição. Quando o Hotel Fasano foi inaugurado, choveram convites para que fizesse outras obras no mesmo estilo. “Qual a razão em se repetir?”, indagava-se antes da recusa. Em 2006, Weinfeld desafiou a si mesmo projetando a boate paulistana Disco. Em novos golpes contra o tédio, sonha em projetar um posto de gasolina e um bordel. Sem brincadeira, garante.

Para Weinfeld, são pessoas que precisam ser minuciosamente analisadas — no sentido psicanalítico do termo. Vencida a etapa de afeição com o cliente, o arquiteto se reúne várias vezes com ele na ânsia de espicaçar algum desejo contido que possa guiar o futuro projeto. Dono da casa de show Credicard Hall, em São Paulo, o empresário Fernando Altério sempre gostou de amigos por perto. Também do fascínio de estar perto de um palco. Desse modo, a intitulada Casa Suíça tem o primeiro andar livre de divisórias e se assume como um lugar para o convívio humano, onde a música flui sem dificuldade. O pé-direito de sete metros lhe dá a grandiosidade de um espetáculo. O detalhe fica por conta das luzes direcionadas ao centro. Muito perto de romper a tênue linha da cafonice, ergue-se uma casa-palco elegante e grandiosa.

Como na psicanálise, existem os desejos mais explícitos e os que emergem só depois de várias sessões. Foram necessárias muitas conversas para que um dos clientes de Weinfeld descobrisse que queria sentar no sofá e encostar as mãos na piscina, como acontece na Casa Marrom, cuja foto abre esta reportagem. No caso do marchand e sua mulher, fotógrafa, o desejo já era sabido: um recanto onde pudesse viver em harmonia com a vasta coleção de obras de arte. Para outro casal, esse afeito à discrição, uma sala cercada de cortinas translúcidas. Na casa do jovem solteiro, uma escada liga a sala ao quarto. Na parede acima dos degraus, a sugestiva plaquinha “Sex”.

De costas para São Paulo
Isay Weinfeld nasceu em São Paulo, mas sua arquitetura se desenrola de costas para a cidade. Pode-se ter uma idéia de sua visão da capital paulista assistindo-se a Fogo e Paixão, de 1988 — incursão de Weinfeld pelo cinema, como roteirista e diretor, em parceria com outro arquiteto, Márcio Kogan. O filme lança um olhar satírico sobre a cidade a partir do passeio de um ônibus turístico numa metrópole sem atrações turísticas. Weinfeld odeia as calçadas quebradas de São Paulo e evita andar a pé um único quarteirão. Não por acaso, as fachadas de suas construções são fechadas como rostos ranzinzas. Para terror de outros arquitetos, não almeja a arquitetura que se integre ao exterior quando o “lá fora” é uma cidade que, no ano passado, registrou aumento de 18% nos roubos de residências.

O garçom retira o café, e Weinfeld mais uma vez agradece insistentemente. Quando o assunto envereda para outros temas que não a arquitetura, seu olhar desfaz o tédio e brilha. Numa empolgação quase adolescente, garante que o show que o Radiohead apresentará em março no Brasil é um dos melhores que já viu na vida. O que significa muito para alguém que costuma viajar para onde a banda inglesa esteja. A canção Everything in Its Right Place, do álbum Kid A, de 2000, poderia ser a trilha sonora de sua obsessão pelos detalhes. Antes de se retirar do lobby do Fasano, fita as pequenas letras de um logotipo do hotel ao lado do banheiro. Ao ver que os contornos continuam sutis, vai embora satisfeito.

O Livro
Isay Weinfeld, org. Raul A. Barreneche. Bei Editora, 336 págs., R$ 160.

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