A arte de ver

Em cartaz, extintores e afins

por Bruno Moreschi
publicado na revista piauí (01/08)

Se depender de seus vernissages, São Paulo já começou a soprar língua-de-sogra na folia da arte contemporânea mundial, não fazendo feio nem mesmo a Berlim, com seus cerca de 170 museus e 300 galerias. Há poucos meses, um grupo de cinquenta entendidos participava da abertura da exposição “This Is Not a Void” [Isto Não é um Vazio], na Galeria Luisa Strina. Fazia sentido avisar sobre o teor da mostra dos 37 artistas participantes: eram obras imateriais, efêmeras e/ou imperceptíveis aos cinco sentidos. Entre as efêmeras, causou mossa o cubo de gelo do tamanho de uma criança de 5 anos instalado na entrada da galeria, obra do artista americano Paul Kos. “Um trabalho frio e interessantíííssimo”, comentou um dos convidados, alongando assim mesmo o i. Como era esperado, o sol ardente do dia seguinte derreteu a obra. Impôs-se então a candente dúvida: se a poça de água resultante deveria receber um rodo ou a redobrada atenção dos visitantes.

O cenário artístico da capital paulista reproduz em escala gigante a tese de mestrado do artista britânico Richard Michen, a ser defendida este mês na Birmingham City University. Em 95 páginas, ele detalha o resultado da experiência que realizou em 2006, quando alugou um galpão em Londres, não pôs uma reles obra no seu interior e convidou o povo a visitar a exposição. Cento e vinte e seis pessoas deram o ar de sua graça. Na saída, responderam a um questionário no qual, entre outras perguntas, pedia-se que apontassem a obra que mais lhes agradara. É fato que cerca de um terço dos visitantes (37%) nem teve a coragem de dizer que o rei estava nu. “Nenhuma em especial”, responderam. Era gente sem olho para o escarlate fulgurante do extintor de incêndio, vencedor inquestionável da noite, tendo cativado nada menos do que 42% das pessoas. Outras 17% ficaram fascinadas pela coluna estrutural marcada por uma perigosa rachadura. Os últimos 4% ficaram em dúvida e preferiram não responder.

Assim, foi certamente por má-fé que a notória 28ª Bienal de Arte de São Paulo, cujo tema era “Em Vivo Contato”, recebeu, para grande desgosto de seu curador, Ivo Mesquita, a alcunha de “A Bienal do Vazio”. É bem verdade que o 2º andar foi propositalmente deixado às moscas, mas e os extintores? Havia cinco deles estrategicamente localizados nos cantos da vasta área de 12 mil metros quadrados. E não só: a dar pistas para o amador das artes, outros 39, igualmente vermelhos, igualmente estéticos, se espalhavam pelos outros dois andares. A eles se somavam, em ordem crescente de tamanho, outros tantos cilindros com capacidade para 5 litros de espuma, uma dezena mais robusta capaz de conter 10 litros e quatro graudíssimos de 75 litros. Bastava fazer a enquete. O andar só estava vazio para os que teimavam em não ver.

Deve-se registrar, porém, que há os que vêem e não se conformam. No Museu de Arte de São Paulo, pregado à parede, um dos aparelhos que controlam a umidade do ar fazia seu serviço quieto e anônimo quando foi praticamente agredido por Maria Guilhermo. Cansada do mundo pós-Marcel Duchamp, Maria virou-se para a filha e explodiu: “A que ponto chegamos!”

Como Luciana Guilhermo é enfermeira, cuidou logo de serenar a mãe. Olhou em volta e registrou que as obras dos artistas italianos contemporâneos em exposição – Michelangelo Pistoletto, Mimmo Rotella e Francesco Clemente – estavam devidamente identificadas. Em seguida, observou que o mesmo não acontecia com o modesto aparelhinho e convenceu a mãe de que não estavam diante de mais uma invencionice.

Maria Guilhermo corre o risco de ficar aparvalhada. Durante a montagem da exposição das obras dos jovens artistas Diogo de Moraes, Eduardo Verderame e José Roberto Shwafty, entre outros, no Centro Cultural São Paulo, algumas paredes foram raspadas para receber uma nova demão de tinta branca. O segurança João Velloso cansou de ver gente caminhando lentamente diante da parede em reforma. Decidiu ser cristão e avisou a um esteta que a mostra ainda não estava pronta. Pela gentileza, recebeu de volta um palavrão impublicável e, desde então, evita questionar a enigmática arte contemporânea.

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