Antes só…

… do que estressado em congestionamento paulistano

por Bruno Moreschi
publicado na revista piauí (12/08)

“Não seja bem-vindo.” Estampada no capacho ao pé do apartamento 402 de um prédio na rua Pinheiros, em São Paulo, a frase exprime com economia uma visão de mundo que prefere paredes a seres humanos. O visitante que se aventure a tocar a campainha vislumbra, pela porta que se abre com inegável hesitação, um par de olhos azuis para lá de ressabiados. Cumpre, então, apresentar-se.

Se o visitante passar pela triagem, Sebastião Godoy, de 57 anos, se dei xará ver de corpo inteiro, metido num pijama de listas horizontais azuis que espicham ainda mais o seu exato 1,90 metro de altura — o homem parece um bambu. Não sem esforço, alonga o braço e indica o caminho ao convidado, num gesto elegante que lembra o toureiro dando passagem ao touro. Movimento calculado: nem a pontinha do mais comprido dedo de Godoy se atreve a ultrapassar a soleira da porta e avançar pelo espaço público do corredor, ali onde começa o abominável mundo afora.

O sobrinho, hoje instalado numa república, é grato ao parente arredio. Liga quase todo dia para lhe dar boa-noite e exerce diligentemente o encargo de lembrar ao tio quais os esparsos dias em que ele precisa sair de casa. O próximo compromisso será nesta primeira semana de dezembro, quando Godoy terá de andar três quarteirões até o cardiologista. “Não gosto nem de imaginar”, comenta, não se sabe se para si ou se para as paredes.

Godoy é um misantropo, um militante da reclusão. O primeiro sinal de que a solidão era o seu destino surgiu em junho de 2002, depois da morte de Cristiana, sua companheira de 27 anos. Taciturno, o embrião de eremita foi ao supermercado, comprou um lote duradouro de biscoitos – em especial, waffles de morango, que ele muito aprecia –, estocou-o na despensa e decidiu se trancafiar em casa para sempre. Entretanto, não estava pronto para tal radicalismo. No terceiro dia, uma quinta-feira chuvosa, foi acometido por uma solidão tão atroz que ele não teve dúvidas: desceu de pijama (listas alaranjadas dessa vez) e puxou uma longa conversa fiada com o porteiro que antes mal cumprimentava. Deu-se conta de que o isolamento total, sem visitas nem telefonemas, beirava o exagero dos loucos.

Aos poucos, ele encontrou meios de se adaptar. Abriu brechas para a visita ocasional de amigos e deu habeas corpus ao telefone, que usa sem nenhuma restrição. A clausura se tornaria cada vez mais exitosa.

No início de 2006, duas decisões cruciais arremataram a criação do mundo ideal de Sebastião Godoy: a assinatura de uma boa banda larga e do pacote mais completo de tevê a cabo, composto de 124 canais. Tomadas essas medidas, Godoy olhou em volta, suspirou de prazer e disse adeus ao mundo. Saiu do prédio apenas seis vezes nos últimos dois anos, o que dá uma saída a cada 121 dias, quase sempre para tratar de pendengas bancárias e ir ao médico.

Godoy encara a atual situação como um work in progress; pretende reduzir drasticamente essa média e, a longo prazo, resolver tudo sem pôr o pé fora de casa. Espera que, no futuro, possa até se consultar por telefone. Godoy enumera as vantagens da vida solitária. Sobra sossego para afiar o inglês com doses diárias de CNN e para desfrutar daquele sentimento de ubiqüidade que só 124 canais são capazes de proporcionar. Exemplo: no fim do ano, além de acompanhar a queima de fogos do Rio de Janeiro sem se misturar à multidão (“Deus me livre!”), pode comparála com os flashes de um sem-número de capitais do país e do exterior. E ele garante que o fardo de encarar o apresentador Fausto Silva na alvorada de um novo ano não lhe traz melancolia.

Pior, bem pior, seria encarar São Paulo. A seu juízo, a capital já não é uma cidade. “É uma gaiola abarrotada de passarinhos que se bicam para comer o pouco alpiste que sobrou na lata”, pondera, metafórico. Em 1999, ao se aposentar como atendente de caixa do Banco do Brasil, Godoy concluiu que de nada adiantava morar num lugar com vasta agenda cultural se o trânsito e as filas o impediam de aproveitá-la. Uma vez, chegou a ficar preso durante três horas num congestionamento da Marginal Tietê. Até onde alcançavam seus 2 graus de miopia, divisava um horizonte cinzento de carros, carros, carros. Também se viu cercado por outros tantos milhares de paulistanos, mas se sentia estranhamente só. Perdeu o horário do cinema, vendeu o carro, passou a contar com ônibus, metrô e carona. Continuou a perder o cinema e a estar à mercê do caos urbano.

Havia sempre a possibilidade de fugir para o interior, mas a idéia não lhe agradava. Nascido num sítio em Mococa, São Paulo, Godoy sabia que tirar leite de vaca, plantar verdura e agüentar enxames de pernilongos ao cair da tarde só é lindo no cancioneiro de Beto Guedes. Mil vezes permanecer na megalópole paulista, diante da tela de tevê ou do computador trazido dos Estados Unidos pelo sobrinho Miguel Arcanjo.

Godoy acorda todos os dias às oito da manhã. Liga a televisão, testa o inglês e checa nos sites as mesmas notícias lidas na véspera. Na hora do almoço, pinça seus pratos do livro 110 Receitas sem Colesterol, de Ana da Costa Cabral, comprado, obviamente, pela internet.

À tarde, são quarenta minutos de esteira e uma hora para desfiar argumentos em duas comunidades na internet, uma sobre filmes, outra sobre livros. Recentemente, discorreu sobre o último Batman, baixado igualmente da internet: “Gotham City é o retrato fiel da cidade que já não integra mais, apenas oprime.” Dedica o tempo que sobra a dar vazão a seus dotes artísticos. Já são centenas de desenhos abstratos feitos a bico de Bic azul. “Tento não fugir do ponto e da linha simples”, é como define seu estilo. Também é leitor sério. Assim que traçou A Peste, de Camus, mergulhou nas Flores do Mal, de Baudelaire. À noite, Godoy atende telefonemas.

Vez por outra tem de lidar com os fardos do destino, como no primeiro semestre do ano, quando foi obrigado a ceder ao inesperado: Miguel Arcanjo, de 22 anos, quis porque quis tentar a vida em São Paulo. Guiado por um senso de responsabilidade familiar, o ermitão se viu forçado a desconsiderar o que dizia seu capacho. Ele confessa: viveu meses sofridos.

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