You drive me loco

Em carros rebaixados nas ruas de Los Angeles, os chicanos reafirmam suas identidades com o cuidado de não acelerar em demasia

por Bruno Moreschi
Publicado na ffwMag! (12/08)

A alma desenfreada, potencialmente truculenta, do norte-americano encontra a cumplicidade ideal num amontoado de aço, vidro, borracha e couro. A evidência se reforça em Los Angeles, cidade em que a senda surgiu antes mesmo do que Hollywood. Os road movies criados aqui, as highways, os clarões de luzes apressados que as perpassam são rastros de uma corrida que começou no século 17 com o ir e vir de missionários espanhóis colonizadores. De igreja a igreja, espalhadas numa faixa de 48 quilômetros da região, eles abriram o caminho para que, no futuro, cada grupo se identificasse com seu próprio estilo de carro.

Não poderia ser diferente para os hispanos e seus filhos e netos chicanos, que representam cerca de 30% da população de Los Angeles. Suas máquinas conhecidas como lowriders, que também dá nome aos motoristas, são nitidamente distinto dos conversíveis dos playboys que rasgam com fúria as ruas de West Hollywood. A começar pelos motores antigos e barulhentos dos carros preferencialmente das décadas de 1950 e 1960 – tão lentos que quase nunca ultrapassam 80km/h. A tradicional suspensão dos veículos é substituída por uma hidráulica, o que permite num simples apertar de botão o subir e descer dos chassis desses carros coloridos.

Seus donos, que adoram manter o bad to the bone nos rostos, chamam carinhosamente os veículos de low and slow (ou também baijito y suavecito). A variedade cromática das latarias é tamanha que as cores remetem a significados facilmente reconhecidos entre a irmandade. O amarelo é riqueza – e o dono que sabe seguir a estética aprovado pelo grupo complementa o brilho com rodas de aros dourados. O azul tornou-se sinônimo de lowriders preocupados em passear com a família a despeito de farrear pela noite de ritmos caribenhos de Los Angeles. Todavia, as regras são mutáveis. Atual sinal de solteirice, o vermelho já foi proibido. “Tão ofensivo quanto o sangue que os pais desses motoristas de Ferraris tanto derramaram”, repetiam os mais políticos. Bastou os negros do hip hop customizarem seus carros vermelhos de maneira semelhantes aos lowriders que a aversão rubra facilmente se dissipou.

Até a década de 1980, lowrider que se preze era quase sempre um Chevy Impala, que já vendeu 14 milhões de unidades nos Estados Unidos, mais do que qualquer outro full-size car, aqueles carrões que se assemelham a banheiras ambulantes. Outras marcas foram aceitas em meados de 1990, com o lançamento de duas bíblias para o grupo, o How to Build a Lowrider e Lowrider’s Handbook. Entre os carros que passaram a ser modificados, estão o Chevrolet Monte Carlo, Buick Regal, Oldsmobile Cutlass Supreme e Pontiac Grand Prix, todos da General Motors.

Ao pressionar a maçaneta das portas desses carros, que podem se abrir horizontal ou verticalmente, é possível encontrar quase sempre estofado de couro, lã ou veludo, luzes néons nas laterais do banco traseiro e CDs que compõe a trilha sonora desse passeio lento e rasteiro. Quando sozinhos, escutam muito hip hop. Não necessariamente a cantoria rimada na voz de um negro, mas de um chicano como Mr. Capone-E. Em ensaios fotográficos sempre na frente de algum venenoso carro, já vendeu 500 mil discos repetindo “sou eu a voz das ruas”. Na cidade onde os carros são protagonistas, há sonho maior para o motorista fanático?

O som(brio) de Capone não agrada, porém, as mulheres tão almejadas pelo grupo – mesmo inseridos nessa relação fetichista com seus carros, eles gostam de mostrar uma irredutível masculinidade. Para convencê-las a aceitarem uma carona, colocam em seus tocadores equipados com subwoofers e amplificadores as músicas mais recentes de Janet Jackson ou de Paulina Ananda, uma Britney Spears que canta em espanhol.

Curiosamente a maioria de suas acompanhantes é latina, não fazendo jus à brancura excessiva das típicas lowriders girls que estampam as capas de revistas especializadas. A mais conhecida delas é a Lowrider Magazine, cujo índice resume as prioridades de seus leitores: carros, mulheres e festas, respectivamente.

Alicia Whitten, 29 anos, é uma dessas modelos. Cabelos negros, corpo magro, ligeiramente malhado, e seios muitíssimos fartos (“sim, é silicone”, confessa). Além de já ter feito três ensaios para a publicação, costuma ser contratada para lustrar o ego dos chicanos nas festas que acontecem no Car Show Bar, em Whittier Boulevard, East Los Angeles, a Meca hispânica da cidade. Recebendo 1.500 dólares por aparição, enquanto as outras costumam receber menos da metade disso, ela explica que a regra é paparicar aqueles que mais possuem parafernálias em seus carros. Também pudera: muitas vezes são os donos das oficinas automotivas que comandam esses bares e que custeiam encontros promovidos por clubes como Eternal Rollez Car Club, Elite e Traffic.

Numa conversa rápida pela internet, Alicia sabe que não sou um chicano dono de um carrão. Mesmo assim, persiste em seu personagem que pronuncia respostas sempre com voz forçadamente juvenil. “Gosto de fazer amor num banco aveludado de um Impala, de preferência escondida de algum policial que esteja multando veículos por excesso de velocidade”, segue seu script para depois salientar que gosta de lowriders com jeito de malvados, mas sem mau hálito.

É com “you drives me crazy”, expressão mais pertinente impossível, que Enrique Gutierrez, 35 anos, se declara para Alice em seu My Space. Lowrider dono de um Oldsmobile Cutlass Supreme 1969, garante que já gastou no mínimo 10 mil dólares para incrementar algo que chama de “filhote”. Nada que o destaque de outros chicanos motorizados, se não fosse suas ferrenhas críticas com a falta de visão ideológica do grupo. “Andamos com nossos carros em Los Angeles, chamamos a atenção, mas não aproveitamos tamanha visibilidade para exigir nossa legalização no país”, explica numa clara referência a César Estrada (sic) Chávez, um dos mais emblemáticos militantes pelos direitos civis dos mexicanos americanos na década de 1960.

Chávez, cujo carro era um Chevrolet Impala de bancos de couro, sempre depositou suas esperanças políticas ao Duke’s Car Club, fundado em 1962, o mais antigo grupo de lowriders de Los Angeles que deu origem a essa febre entre os chicanos de hoje. Admirava aquele grupo de imigrantes orgulhosos de seus carros que lutavam por mais segurança nos bairros hispânicos da Califórnia e que tanto sofreram ao lutarem na Guerra do Vietnã. Ele morreu em 1993, no início da década que popularizaria os encontros mensais de lowriders no verão de Los Angeles.

Em julho, no maior deles, o L.A. International Auto Show, vê-se de tudo um pouco, menos qualquer nuance de ativismo político. O que move multidões é o concurso da camiseta molhada, cuja vencedora em 2008 foi uma morena muito parecida com Alicia. Além disso, eles adoram entrar em seus carros e se mexerem freneticamente de forma que motorista e maquina se torne um só gigante dançante. Como em seus velocímetros, os lowriders atuais não têm pressa, por mais que suas condições em Los Angeles faísquem tal qual a lataria de seus carros nos asfaltos das highways.

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