Índio quer canudo


Para passar em medicina, só com urubá-de-caboclo

por Bruno Moreschi
Publicado na revista piauí (12/08)


Receoso de que 160 jovens índios da reserva Raposa Terra do Sol, em Roraima, levem bomba na prova, o cacique Orlando Pereira da Silva resolveu apelar um professor particular. Contratou um homem branco que, desde julho, lapida os melhores da tribo com o intuito de prepará-los para o vestibular indígena a Universidade Federal de São Carlos, a UFSCar, no interior paulista. O cacique vislumbra um exército dotado de muito conhecimento por baixo do cocar. “Assim que se formarem, teremos gente estudada de sobra para lutar em Brasília”, aposta o líder, que só saber escrever o próprio nome.

Em sua segunda edição, o vestibular público da UFSCar é o único em São Paulo exclusivo para silvícolas. Nas provas, marcadas para 4 e 5 de fevereiro – dois meses após o vestibular tradicional -, os candidatos concorrerão a 57 vagas, uma para cada curso de graduação. Regina Melchiades, pedagoga do Programa de Ações Afirmativas da universidade, promete que a disputa no próximo ano será bem diferente do minguado primeiro concurso.

Dos 130 índios inscritos para o vestibular de 2008, apenas 37 compareceram aos exames. Desses, dezesseis acabaram aprovados. Medicina foi a carreira mais concorrida, com oito candidatos por vaga, contra uma relação de 123 por 1 para quem pleiteava na forma convencional. Os demais cursos não despertaram interesse ou tiveram um único candidato. Ao concorrente de si mesmo bastava não levar zero em nenhuma das disciplinas.

O comparecimento quase nulo se deveu à divulgação capenga da Funai, que anunciou a novidade para uma parcela mínima dos estimados 350 mil índios brasileiros que habitam aldeias. Os membros da tribo terena, do Mato Grosso do Sul, souberam da inscrição com uma semana de antecedência. Diante da promessa da Prefeitura de Dourados de que teriam um ônibus para levá-los a São Carlos, ajeitaram às pressas a papelada. Dois dias antes das provas, o desespero: ônibus nenhum apareceu. Os índios foram obrigados a alugar uma van para vencer as 12 horas de viagem. Dos 60 inscritos, 15 tiveram condições de pagar o translado; o restante ficou em casa.

A lista dos aprovados em São Carlos não condiz com o mapa indígena brasileiro. Os guaranis, etnia mais numerosa, com 40 mil membros, enviaram apenas dois concorrentes. Conseguiram as vagas de engenharia florestal e turismo – esta para Osmar Veríssimo, que, após amargar dois zeros no primeiro semestre, desistiu da vida acadêmica, regressando à aldeia. Dos dezesseis alunos iniciais, catorze ainda convivem pacificamente com os companheiros da universidade – são nove terenas, três xukurus, um manchineri e um guarani. Recebem 120 reais de ajuda de custo, além de acomodação gratuita na moradia estudantil. Por precaução, a lista final do vestibular não informou a colocação para evitar comentários maldosos.

Aberta até o dia 20 de dezembro, a seleção do próximo ano já tem quase 240 inscritos, superando o vexame da estréia. As regras permanecem iguais: o candidato precisa ter carteira de identidade, 2º grau completo em escola pública ou da tribo, além de um documento assinado pelo cacique, atestando o vínculo dele com a aldeia, para que nenhum índio urbano se aproveite do privilégio.

O vestibular, bastante simplificado em relação ao que será enfrentado pelos 30 856 alunos sem raízes aborígenes, é dividido em dois dias. No primeiro, há uma pergunta generalista, a ser respondida em forma de redação – o tema em 2008 foi: “A educação de qualidade tem sido um direito de todos os brasileiros?” Em seguida, cinqüenta questões de múltipla escolha. As de português, geografia e história estarão relacionadas à temática nativa, incluindo possivelmente fatos como a Cabanagem, revolta de 1835 em que índios e negros se estranharam com os brancos paraenses. O desafio fica por conta das disciplinas exatas. Nas questões de física ou biologia, nada de enunciados sobre a velocidade da flecha ao acertar a anta ou sobre a receita do chá de boldo. Só mesmo a frieza típica das funções de segundo grau, dos triângulos de Pitágoras e das Leis de Newton. No segundo dia, os candidatos participam de uma rápida entrevista, suficiente para mostrar que são fluentes em português.

“Concentrem-se nas questões de humanas”, sugere aos inscritos a índia da tribo terena, Jiene Pio, que cursa filosofia e sonha com o mestrado. O vestibulando Paulo Ferraz, pataxó da Reserva da Jaqueira, a 15 quilômetros de Porto Seguro, acata a dica, acrescentando um toque de intuição nativa: se o tempo apertar, diz que balançará o apahab (dedo) sobre as cinco alternativas para escolher aquela que julgar mais baiachú (bonita). Já os 32 aspirantes do Alto Xingu, no Mato Grosso, têm sido mais precavidos: em setembro, dançaram aos deuses gêmeos Sol e Lua pedindo que as provas de fevereiro tragam questões sobre a descoberta do Brasil. É que há um ano, professores voluntários apareceram por lá para montar uma peça sobre a chegada dos portugueses.

Durante as férias de julho da universidade, os três calouros xukurus foram convocados para voltar à tribo, na serra do Orurubá, a 215 quilômetros de Recife. Encontraram ali vinte vestibulandos afoitos por conselhos para as provas. Edinaldo dos Santos Rodrigues, que cursa psicologia, Marco Antônio Viera, na medicina, e José Luiz Silva de Santana Filho, na fisioterapia, foram unânimes em indicar a urubá-de-caboclo, da família das Marantaceaes. Revelaram que uma semana antes do vestibular, adentraram a mata em busca da planta, chapando-se do chá de suas folhas por dois dias. Ditos como purificados, passaram nos exames. Jonatan Ferreira, o único que preferiu revisar a matéria amargou uma reprovação em medicina. Não terá permissão do cacique para tentar novamente.

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