”Lama”, na voz de Elza Soares


Após cinco décadas, cantora livra-se do trauma que a impedia de interpretar a música


por Bruno Moreschi
Publicado na revista BRAVO! (12/08)

Pressentindo o próprio fracasso, a menina de 13 anos assistia dos bastidores ao homem que desafinava O Circo Chegou, sucesso do compositor Braguinha em parceria com Antônio Almeida e Alberto Ribeiro. A platéia vaiou. O gongo vibrou. Naquele domingo de 18 de outubro de 1953, ela seria a próxima atração do Calouros em Desfile, programa da Rádio Tupi apresentado pelo atroz Ary Barroso. De certo, a menina sabia apenas que não poderia alargar os passos quando entrasse no palco. Não por medo do tropeço, mas pelo risco de se espetar com os alfinetes que prendiam a saia azul, roubada da mãe, na cintura do corpo mirrado de 36 quilos.

Durante cinco décadas, Elza Soares descreveu inúmeras vezes em entrevistas a noite de sua estréia. Em contrapartida, evitou ao máximo voltar a interpretar Lama, cantada naquela ocasião. Livrou-se do trauma somente neste ano, ao entoá-la em Chega de Saudade. No filme de Laís Bodanzky, recém-lançado em DVD, Elza incorpora a cro­oner que anima um clube repleto de senhores e senhoras pés-de-valsa.

Escritas por Aylce Chaves e Paulo Marques, as primeiras e resolutas estrofes de Lama (“Se eu quiser fumar, eu fumo/ Se eu quiser beber, eu bebo”) lhe trazem lembranças não do alcoolismo do jogador Mané Garrincha, com quem foi casada por 17 anos, mas do terrível ensaio comandado por Tião Macalé, o homem do gongo de Ary, conhecido depois pelo bordão “ih, nojento!”, do programa dos Trapalhões. Por puro prazer da brincadeira, ele fez sinal para que a banda ignorasse o fá sustenido que Lama pedia. Mesmo inexperiente, Elza não derrapou na armadilha e se saiu bem.

Desafio infinitamente maior foi entrar no palco sem azedar a cara por causa do alfinete filho-da-mãe que lhe mordiscava a coxa esquerda. Tão logo apareceu, magérrima e desengonçada, Ary e platéia sucumbiram à gargalhada. “De que planeta você veio?”, perguntou o apresentador num misto de intenção vexatória e genuína curiosidade. “Do planeta fome”, ela enraiveceu-se.

A truculência espantou a platéia, e Elza evitou simplesmente cantar, atitude de quem tem a vida ganha. Preferiu berrar com voz arranhada — a cada frase, amargava a impressão de que o ar cessaria. Os versos “Hoje quem me difama/ Viveu na lama também” foram ditos muito próximo do rosto enrubescido de Ary, na ânsia de responder com ritmo à pergunta traiçoeira anterior. Quando ela terminou a música, a platéia aplaudia de pé, o apresentador abraçou-a cheio de beijos e, chorando, levantou as mãos da nova cantora. Alcançou nota máxima, uma quantia equivalente a R$ 800, que salvaria o filho prestes a morrer de fome, e a exclamação do carrasco que anos depois se tornaria amigo: “Senhoras e senhores, acaba de nascer uma estrela!”.

No corredor da rádio, desviou-se da maioria dos parabéns (achava todos um bando de raposas) e retornou para casa com medo da surra da mãe, que desconhecia a aventura da filha. À época, a menina aplacava a fome mamando na teta de uma cabra nos arredores do barraco onde morava, em Água Santa, zona norte do Rio de Janeiro. E não sabia que uma conspiração cósmica a seu favor já se desenhava em meio à jogatina carioca: por três dias seguidos, na mesma semana que a consagrou, deu cabra no jogo do bicho.

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