O aparador de autoridades

As razões de um barbeiro para se queixar da Justiça

por Bruno Moreschi
Publicado na revista piauí (09/08)

Quem enfrentou os folículos piloso-capilares de cinco presidentes da República e de quase todos os integrantes do STF tem o direito de acreditar que nenhum fio o surpreenderá.

De fato, fazia tempo que a vida profissional não apresentava desafios a José Francisco de Almeida Júnior, o seu Juca, barbeiro do Supremo Tribunal Federal há 41 anos. Mas eis que, em 2003, o presidente Lula nomeou para a casa Joaquim Barbosa, o primeiro negro a ocupar o posto de ministro. Juca, depois de décadas na lida com fios mais ou menos acetinados, se deparou com o que chama de “a complexidade de um pixaim”. Barbosa pediu “o mesmo de sempre”. O barbeiro suspirou fundo antes da peleja e, ao se despedir do meritíssimo, correu para o minúsculo banheiro da barbearia e enxugou o suor do rosto.

De cabelos alisados a poder de xampu de mocotó, Juca chegou a Brasília em 1959, quando a cidade não passava de uma promessa. Ganhando cinco salários mínimos num salão de Ipanema, achava que nunca deixaria o Rio. Mas o músico e também barbeiro Hamilton Costa, amigo de sangue mais aventureiro, convidou-o a desbravar a futura capital. “Deixa de ser trouxa, a capital nunca vai sair do Rio de Janeiro”, resmungava Juca com o mau humor costumeiro. Quando o avião da Varig pousou no aeroporto improvisado no centro do nada, ele mal se deu ao trabalho de olhar para o companheiro com cara de “não te falei?”.

Fato é que ficou.

Até o segundo governo do regime militar, a maioria de seus clientes era de hóspedes do Brasília Palace Hotel. Os dois primeiros foram o presidente Juscelino Kubitschek e Oscar Niemeyer, que pouco falava. “Dá uma aparadinha na lateral”, era o máximo que dizia, talvez porque palavras demais fossem inúteis para cabelos de menos. Aqui e ali, Juca ousava desenhar uma curva no couro cabeludo do cliente. Era uma espécie de homenagem. Já os cabelos de JK não o estimulavam muito. Limitava-se a cortá-los um pouquinho na frente e um tantão atrás, ciente de que todo esforço desapareceria debaixo do primeiro capacete de obras que passasse pelo presidente.

Jânio Quadros mandava o carro oficial ir lá buscar seu Juca e trazê-lo até o gabinete presidencial, onde fios de cabelo preto se espalhavam por despachos vários. O presidente pagava com um vale que tinha de ser trocado na tesouraria do palácio, para grande contrariedade do barbeiro. Em 19 de agosto de 1961, seis dias antes da renúncia, Juca entrou no gabinete e não recebeu bom-dia. O que viu foi um líder tristonho, ou, como o próprio escreveria no discurso final, esmagado por “forças terríveis”. As tesouradas saíram mais rápidas do que o habitual, e, ao fim e ao cabo, sentindo o ar pesadíssimo, Juca não se atreveu a levantar a questão dos honorários. Saiu de fininho e nem sequer foi levado de volta no carro oficial. Até hoje não recebeu. “Não me pagou, e deu no que deu”, teoriza.

De João Goulart ele só se lembra do redemoinho na parte dianteira da cabeça. De Castello Branco, avaro até no simples “obrigado” que pontua o fim de corte, Juca uma vez se vingou: desbastou com gosto quase subversivo as laterais da cabeça golpista e a deixou com orelhas ainda mais retumbantes. No confronto com Costa e Silva, insistiu em lhe arrancar o ralo bigode, mas o marechal não admitia intromissões na rica dialética entre suas sobrancelhas hirsutas e o fino risco acima dos lábios.

Desgostoso com o tom aziago dos presidentes militares, Juca aceitou o convite do então ministro-presidente do STF, Luiz Gallotti, e trocou o Executivo pela apertada barbearia dos dignitários do Judiciário. Durante anos foi responsável por todos os cortes ministeriais. Hoje, em tempos de vaidade além da conta e grande oferta de salões de beleza, calcula que apenas metade das excelências se entregue ao seu talento.

Maurício Corrêa é um deles. Dos mais afoitos, antes de começar põe o relógio de pulso na bancada e pede que a aparadinha seja realizada em no máximo cinco minutos. Juca não cede: “Cinco não dá, excelência. Posso tentar em dez.” Faltando vinte segundos para o estipulado, Corrêa começa a contagem regressiva.

Celso de Mello é o radical da turma. Um dia apareceu contrariado e pediu máquina um. “Ministro, o senhor vai ficar parecendo um rato sem pêlo”, avisou Juca. Diante de um “Não interessa”, raspou o ministro. Quinze dias depois, esbarrou num Mello cabisbaixo, cansado da mofa dos colegas.

Sepúlveda Pertence, de tão assíduo, virou o “ministro camarada”. Enquanto os outros pagam de 10 a 50 reais, ele não hesita em oferecer de 80 a 100. Há seis meses, seguindo os conselhos de Juca, deixou a barba crescer, no melhor estilo petista. Num encontro de corredor, Lula avisou que o ministro estava com a barba desalinhada. “Agora que a Ellen Gracie está aqui, dá um jeito nisso”, teria dito. Na hora Pertence fingiu que achou graça, mas foi logo tomar providências. Juca ouviu a história e protestou: “Pois eu peço licença, meritíssimo: quem o Lula pensa que é para reclamar da sua maravilhosa barba, se ele próprio carrega aquele monte de pêlos desordenados?” Pertence respondeu que Lula pensava — e era — o líder da nação. O barbeiro cedeu.

Mesmo com idade avançada e pavio cada vez mais curto, seu Juca, 72 anos, não pensa em se aposentar. Teme entretanto os tempos que correm, quando autoridades acham que podem dispensar seu salão. Que Ellen Gracie seja uma das trânsfugas, ele até compreende; presidente do STF até abril, ela confessou ser a autora do elegante ninho de passarinho que exibe à guisa de penteado. Gilmar Mendes, por sua vez, parece que o ignora por falta de tempo — são muitos os pedidos de habeas corpus a despachar. Mas houve um ministro que o feriu: Eros Grau, num momento de desatino, disse que aparar cabelo e barba é trivialidade.

Pois então que se danem os escândalos da República. Grave mesmo é o êxodo capilar que esvaziou o STF.

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