Famílias celestiais

A história de dez anjos e uma desaparecida


por Bruno Moreschi
Publicado na revista piauí (09/08)

Toda quarta-feira, Suzana Afonso Ferreira entra de olhos fechados na Paróquia de Santa Rita de Cássia, em Campinas. Apesar de devota da santa, seus passos cuidadosos e suas mãos estendidas à frente do corpo, à moda de quem anda no escuro, nada têm a ver com promessa ou reverência. A cegueira voluntária é fruto da inquietude que lhe causa ver a si mesma, em vestes celestiais, no vitral acima do altar. Pecadora confessa, ela não se sente à vontade com a homenagem.

Suzana e as outras nove personagens retratadas nos vitrais da igreja não conhecem a Bíblia frente-e-verso, como um são Cipriano, nem penaram na vida como virgens mártires, tal qual uma santa Cecília. Várias delas até se declaram católicas não-praticantes. Ainda assim, por força do sobrenome, aparecem como dulcíssimos anjos de vidro acima do altar. Na contramão do dito bíblico, tem-se a impressão de que, nesta paróquia, mais fácil é um rico entrar no céu do que o camelo passar pelo buraco da agulha.

A história começou em março de 1957, depois que o padre Francisco de Assis Marques convenceu a prefeitura a doar um terreno para a construção de uma igreja no bairro de Nova Campinas. Como faltava dinheiro para as obras, o padre recorreu a seus dotes de persuasão para levantar fundos. Bateu de porta em porta à cata de doações, mas percebeu que humilhação tamanha não ornava a batina. Resolveu, então, abandonar a tática do grão-a-grão. Deixou de lado o varejo e partiu para o atacado.

Reunindo o maior número de abonados que conseguiu identificar no entorno da futura igreja, padre Francisco lhes propôs uma rifa. Os nababos locais apenas se entreolharam. Escaldados, já se viam disputando um pernil assado ou uma caixa de sabonetes.

O religioso fez suspense. Primeiro, explicou as vantagens de o bairro ter uma casa de orações própria. Os dois argumentos de que lançou mão falavam mais aos temores terrenos do que à bem-aventurança eterna. Uma igreja, segundo ele, seria como uma delegacia, com a diferença de que a proteção se daria no âmbito espiritual. Depois, sacou um silogismo: se uma igreja era a morada de todos os filhos de Deus, seguia-se que a edificação deveria ser considerada um bom investimento imobiliário. Não empolgou a platéia.

Sibilino, avançou no trabalho de pescador de almas e revelou a prenda da rifa: uma caixa de sabonetes. Obteve bocejos.

Rindo de si para si, o padre desferiu então a estocada fatal: os sabonetes se destinavam ao sortudo ganhador do sorteio. Já ao missionário diligente que mais vendesse cartelas da rifa, estaria garantido o direito de estampar, nos vitrais da igreja, o rosto da prole. Detalhe tentador: com direito a cachinhos dourados, asas angelicais e à companhia de santa Rita de Cássia, poderosa advogada de causas perdidas e santa das coisas impossíveis. Acabara de sacar da cartola uma prática cuja jurisprudência remonta aos Borgias e Medicis da Renascença italiana.

A idéia agradou mais que busto romano em casa de novo-rico. Em poucos minutos as famílias se digladiavam pelas rifas, e a tal ponto que o padre, para evitar maiores violências, informou aos berros que tinha dado empate. As onze famílias ali reunidas acabavam de adquirir um lugar, se não no céu, ao menos na igreja do bairro.

Chás beneficentes ajudaram a completar o que faltava. Alguns carolas juram que até Juscelino Kubitschek colaborou com uns tostões (efetivamente, vê-se por ali um Moisés com ares presidenciais).

Foi chamado para produzir os sete vitrais o artista polonês Arystarch Kaszkurewicz, que espalhou sua obra translúcida em cerca de trinta cidades, mesmo tendo perdido as duas mãos e o olho esquerdo na II Guerra. Padre Francisco penou para fazê-lo retratar as crianças segundo a estrita hagiografia cristã.

No maior vitral, de 10 metros de altura por 20 de largura, dez meninas estão representadas como anjinhos que circundam Rita de Cássia. Maria Heloísa, da família Araújo Teixeira, é a mais próxima da santa. Permite-se mesmo a audácia piedosa de lhe tocar as vestes negras. Fica evidente que a família Zoppi era das mais poderosas, pois arrematou espaço para duas irmãs: Ângela, justamente, e Maria Cecília. Disputando algum destaque, apertam-se na roda Juliana Schwar-tzman, Daniela Bertoni, Cristina Martins, Patrícia Afonso Ferreira Cunha, Regina Bonavita e Suzana Afonso Ferreira. À esquerda de santa Rita, fechando o círculo, aparece Maria Camila Jorge, a mais velha do grupo, com seus 20 e poucos anos. Nota-se constrangimento em seu semblante, como alguém com consciência de que passou da idade de fazer essas coisas. Já a pirralhada que a cerca guarda uma expressão celestial.

Um mistério, porém, ronda o vitral. A história da paróquia informa que eram onze rostos, não dez. Padre Francisco morreu em 2000 sem explicar que fim levou a imagem de Maria Silvia, da família Franco do Amaral. A pobre menina não aparece no grande vitral acima do altar. Nos vitrais laterais há uma moça de cabelos castanhos e uma loira, mas ambas são demasiadamente maduras para corresponder à criança faltante. Vê-se também um peixe, hóstias, cachos de uva e um cordeiro ocupado em tirar o pecado do mundo. Qual teria sido o motivo do desaparecimento? Expurgo por heresia? Excomunhão? Injustiça secular? Por enquanto, só Deus sabe.

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