Pequim não verá nada igual



por Bruno Moreschi
Publicado na revista piauí (06/08)

Se o celular de Sara Uhelski tocar, luzes coloridas piscarão absurdamente ao redor do aparelho. É tanto carnaval que quem não a conhece poderia apelidá-la de a garota do Nokia cheguei. Seus amigos, no entanto, sabem muito bem: o que lhe confere identidade não é nenhum celular estrambótico.

Sara, de 22 anos, é a garota das frases. Aos 5 anos, ainda sem compreender direito o significado do que traçava, gostava de copiar o que a mãe escrevia. Dois anos depois, assinava o nome sem recorrer a imitações. Os textos corridos apareceram aos 10, na aula de redação, e até aqui, reconheça-se, não há nada de incomum na história. Mas finalmente, aos 15, ela ganhou seu primeiro concurso do tipo “crie uma frase”. E hoje coleciona cinqüenta frases premiadas — média nada desprezível de um triunfo a cada dois meses.

A moça desdenha quando lhe pedem que se lembre de todos os concursos que já venceu. Seu ar de enfado só se desfaz — e os olhos negros faíscam — quando recorda o primeiro grande prêmio: uma viagem ao Rio de Janeiro, com direito a acompanhante, para assistir a um show dos Titãs. A promoção pedia uma frase com o nome da banda e as palavras “Daqui pra lá” e “MTV”. Sara precisou de exatos dez minutos para despachar o e-mail: “Daqui pra lá, é só dar pulinhos de alegria e gritar que eu amo a MTV, porque ela vai me fazer perder a voz e abrir meu coração no show dos Titãs.” Tudo bem: Sara concorda que a frase é execrável. Mas e daí? A vitória a fez sair uns dias de Joinville, cidade onde morou boa parte da vida, e voar de avião pela primeira vez.

Inúmeras experiências deleitosas se seguiram ao prazer inaugural de atravessar as nuvens. Em julho passado, Sara ligou para a mãe querendo saber quais eram as medidas da parede da sala de TV. “Por que, pretinha?”, indagou a mãe. A filha respondeu com um gritinho: “Acabei de ganhar uma televisão de plasma 42 polegadas!” Era época de Copa América, e a marca LG pedira à pátria que contribuísse com uma mensagem de estímulo à seleção brasileira. Sara exortou: “Time: antes de entrar em campo, escovem os dentes e vistam cuecas novas. Porque com a TV gigante que a LG vai me dar, eu não vou perder nenhum detalhe!” O Brasil venceu a Argentina e levou o bicampeonato. Sara sofreu o amargor de ver cada detalhe das fatiotas de Dunga.

Intrigada com o próprio desempenho, Sara se informou com os organizadores de uma promoção cujo prêmio eram xampus sobre os critérios adotados na escolha do vencedor. Confirmou o que intuía: do ponto de vista gramatical, a maioria das frases era de uma pobreza de asceta no deserto: você se transformava em vc sem cerimônia nenhuma; ç e ss trocavam de lugar sem pedir licença a dicionário algum, e vírgulas simplesmente inexistiam. Resumo: para ganhar um xampu ou uma televisão de plasma, bastava acatar mais ou menos as regras da união de sujeito e predicado e, de preferência, sacramentar o casamento com uns laivos de humor. Schopenhauer não ganharia concurso. É útil pensar que na mesa-de-cabeceira dos jurados estão empilhadas obras de Luis Fernando Verissimo, não de Victor Hugo. Ao frasista diligente, Sara recomenda assistir a programas de auditório — foco por excelência desse tipo de promoção — e escarafunchar oportunidades na web, em sites como promocoesnainternet.com.br.

De uns tempos para cá, ela vem sentindo que o talento começa a lhe pesar nos ombros. Cansada das pessoas que imaginam que sua vida seja um paraíso de brindes, ela descreve as recorrentes noites maldormidas em busca da frase perfeita. Outro detalhe irritante é ter de agüentar os que a chamam de “sortuda”: “Eu não participo de sorteios. Nos concursos, os jurados selecionam as melhores frases. Minha melhor amiga não é a sorte. É a criatividade.”

Além disso, o day after de uma papa-vitória pode passar longe do desfrute. Poucos imaginam o quão aborrecida é a maioria dos prêmios. Há um desafio considerável em se livrar do que ela chama de “pepinos”. Quando os ganha, Sara os presenteia a amigos e familiares ou tenta gerar alguns trocados. Há três anos, a marca de tênis Olympikus pediu não bem uma frase, mas a invenção de um esporte nunca antes praticado. Sara fabulou um jogo em que mulheres rebatiam a bola com ajuda das nádegas e ganhou um calçado de última geração. Como ela prefere modelos mais simples, vendeu o “breguíssimo” pisante ao marido da faxineira em três parcelas de 150 reais, sem juros. O violão Yamaha eletroacústico foi direto para o irmão. No lançamento do filme Pearl Harbor, respondeu que, se sua cidade fosse atacada e ela pudesse salvar somente um objeto, “ficaria com minha escova de dente, pois se visse algum galã da superprodução chamaria sua atenção com meu sorrisão”. (Arghhhh!) Ganhou uma jaqueta masculina, prêmio que dessa vez ofereceu graciosamente ao marido da faxineira. “Foi uma forma de agradecer por ele ter comprado o tênis”, explica Sara.

Uma de suas chateações atuais é dar destino a um vestido de 6 mil reais que a atriz Mariana Ximenes vestiu na gravação de um comercial de absorvente. O concurso perguntava: “O que você faria se se sentisse segura por mais tempo durante o mês inteiro?” Sara, de pronto: “Viraria estrelinhas na frente de todo mundo para provar que o Always me deixa segura até de cabeça para baixo.” Mofando no armário, a peça prata e verde, incrementada com centenas de lantejoulas, jamais faria o estilo de Sara, bem mais recatada. Na esperança de repassar o produto, ela enviou um e-mail à Daslu, mas os deselegantes não lhe devolveram nem uma resposta automática. Agora tenta o site de vendas Mercado Livre, no qual o trambolho pode ser arrematado pela pechinha de 2 500 reais.

Sara enfrenta uma crescente crise profissional e imagina que, tão logo se livre do vestido, terá tranqüilidade para debelá-la. Recém-formada em jornalismo, cada vez que prova o gosto da vitória ela sente que nasceu foi para a publicidade. “Se eu pudesse viver de fazer frases, seria legal pra caramba.” A constatação não ganharia concurso nenhum, mas é a conclusão honesta dessa Flaubert da exortação justa.

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