Entre mortos e mato



por Bruno Moreschi
Publicado na revista piauí (04/08)

O Cemitério de Vila Formosa, na zona leste de São Paulo – “o maior da América Latina” –, é cenário de diferentes manifestações de tristeza. Na primeira quinta-feira de março, se um casal chorava convulsivamente diante da retirada dos ossos de um ente querido na quadra 45, o sentimento na quadra 22 era discreto, mas nem por isso menos genuíno. José Benedito Arruda, mais conhecido como Zé da Bota, de 62 anos, ministrava sua última aula diante de 1,8 milhão de mortos, sete homens e uma mulher, Djanari Pereira, a porteira do cemitério.

Há duas décadas no ofício, Zé da Bota é o capineiro mais experiente do cemitério, fundado em 20 de maio de 1949 e abrigo de cerca de 1 025 corpos por mês. Quem desce ali ao chão é gente pobre, sem direito a mármore, pedra-sabão ou mesmo túmulo. É terra bruta e lápide modesta. Além da multidão de mortos, há poucas árvores, dois ou três carros quebrados e meia dúzia de corajosos que, antes das sete da manhã, praticam corrida na terra fofa.

Foi nesse cenário desolado que Zé realizou o curso “Lições de vida para capineiros de mortos”. Durante o mês de fevereiro, às terças e quintas de manhã, aquele homem baixinho, de cabelos brancos, magro como um cabo de enxada, falou e falou. A bem da verdade, os alunos já eram capineiros do cemitério e não precisavam de tutor. Mesmo assim, por respeito a Zé, mostraram-se assíduos e concentrados.

A primeira lição sobre a arte de capinar o espaço dos mortos foi de cunho prático-financeiro: o morto só tem o entorno limpo se a família desembolsar 20 reais por mês, preço tabelado para evitar concorrência desleal. Como os capineiros são autônomos, é responsabilidade de cada um cativar os parentes dos falecidos. Certo desapego também é exigência básica. Se o trabalhador quiser honrar com desvelo extremado cada um dos túmulos sob sua guarda, não dará conta do serviço. Ao lado da enxada, deve-se levar sempre a matemática. No segundo mês de trabalho, já é possível ter idéia do número de entornos pelos quais se é responsável. Divide-se esse total por trinta e surgirá a faina diária. Sim, trinta dias. Zé explica que fim de semana não existe para o capineiro ambicioso. Em caso de dúvida nas contas, o porteiro da entrada B pode emprestar a calculadora. Por fim, como em todos os encontros, ele reitera: “Não me venham com histórias de assombração. Aqui não sobra tempo para maluquice.”

As aulas duraram, em média, quase uma hora, mas a quinta não passou de cinco minutos. É que Zé se abaixou para pegar a enxada que descansava junto à lápide de Roberto Almeida (1962–2002) e, quando tentou se reerguer, suas costas gritaram. Curvado, andou de um lado para outro, blasfemando de dor e espantando quem tentava ajudá-lo. Só se acalmou e recobrou a postura de bípede erectus quando Djanari tascou-lhe um soco na coluna vertebral.

Aos 51 anos, lembrando uma versão mini da cantora Sula Miranda, Djanari sofreu golpes piores de Zé. O flerte dos dois é antigo e teve direito a sofrimentos típicos de noiva largada no altar – com a diferença de que o abandono, aqui, foi mesmo entre coroas de flores. Era costume dele fazer piadinhas que afagavam o coração de Djanari. “Você é pra casar”, dizia ele. “Sou não…”, ela desconversava com um sorriso tímido.

Em abril de 1996, após anos de indiretas verbais, Zé a surpreendeu ao pegá-la pelo braço e simular uma união matrimonial. Como se fosse uma mantilha, cobriu-a com um plástico preto, que de porta-ossos se transfigurou em véu de noiva. De mãos dadas, passearam pelo caminho de terra, rumo ao “até que a morte nos separe”. Até hoje Djanari se lembra da ordem das lápides: começou no adolescente Mario Queiroz e sua trágica morte de moto, passou pela velhice incurável de Aparecida Lindberg e foi até Caio Neves, corintiano pálido que, ao lado da fotinho, recebeu o distintivo do time. Diante de Caio Neves, Zé parou, retirou do bolso um anel e o colocou no dedo da noiva. A jóia ficou larga e Djanari evitou perguntar onde ele arranjara a valiosa aliança de ouro.

Zé confirma a história que Djanari conta até hoje, mas explica que tudo não passou de brincadeira. Dias depois do falso casamento, a esposa fictícia sorria mais do que o habitual. Confidenciou a união a dona Euzébia, a velhinha que todos os dias chorava a morte de quatro crianças, seus netos. Zé resolveu agir. Chamou Djanari e duas testemunhas para a sombra da maior árvore do cemitério. Cuspiu uma, duas vezes e passou direto ao assunto. “Foi besteirada. Defunto não casa com defunta”, disse, e voltou para a capina.

Passados mais de dez anos, ali estava Zé da Bota prestes a terminar a última aula. Todos sabiam que era uma despedida, que ele finalmente retornaria ao litoral nordestino. Estava na hora de começar a capinar o próprio fim. Seu último ensinamento não teve nada a ver com o trabalho no cemitério. Zé queria confessar seu arrependimento – confessar em público, diante dos amigos, e principalmente diante de Djanari. Começou vexado, falando que todo dia se morre um pouquinho, que é preciso viver intensamente, e então pediu pela segunda vez. Agora sem anel de morto, mas com lágrimas merecedoras de fé. “Vem embora comigo”, propôs a Djanari. Não sem um gosto de vingança, ela pendeu um tiquinho a cabeça e disse que ia pensar. No canto da boca, porém, seu sorriso já expressava um sim muitíssimo vivo.

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