Vida em três séculos

por Bruno Moreschi
Publicado na revista Carta Capital (
8/04/2007)

Quem é o ser humano mais velho do mundo? Até o início de janeiro passado, a resposta seria: Sarhad Rashidova, nascido no Daguestão, república russa no norte do Cáucaso. Tinha 131 anos. Sarhad morreu e o posto, até manifestações em contrário, é ocupado agora por uma brasileira.

Escondida em uma casa de madeira, no distrito de Içara, ligado à cidade de Astorga, interior do Paraná, a 420 quilômetros de Curitiba, vive Maria Olívia da Silva. Ela tem 127 anos, comprovados na certidão de nascimento, e luta contra os efeitos do tempo. Maria não está nem aí se irá ou não constar do Guinness Book, o livro dos recordes, cujos técnicos iniciaram a verificação para comprovar se ela é mesmo a mais velha. A preocupação vital, no momento, é arrumar uma maneira de segurar a pouca comida que engole no debilitado estômago.

A longevidade de Maria impressiona pelas condições de vida precárias ao longo de quase 13 décadas. Nascida em 28 de fevereiro de 1880, segundo o documento de número 94064864 no registro geral mantido pela Secretaria de Segurança Pública do Paraná, Maria teve, e ainda tem, uma existência de privações. Físicas e morais. A atual certidão de nascimento, feita em 1976, está no cartório de Porecatu, livro A2, folha 5, número 272. Foram testemunhas o policial Helio Garcia e o agricultor Anésio Cogo, hoje com 67 anos. Cogo conhece Maria há muitos anos e foi chamado a confirmar a data de nascimento quando refizeram o documento. A primeira certidão sumiu após uma inundação de 1973 que atingiu o cartório de Itapetininga.

Corria o ano de 1892, quando Maria decidiu, aos 12 anos, fugir da casa da família em Itapetininga, a 170 quilômetros de São Paulo. O pai, sitiante violento, tinha o costume de surrar a filha. Em 8 de março daquele ano, o senhor João Camargo exagerou. Bateu no rosto de Maria com tição de lenha ao descobrir que ela havia transado com um homem mais velho no meio do cafezal. Grávida, a menina decidiu ganhar o mundo.

Dois anos depois de fugir da casa do pai, casou com um servente de obra. Ainda vivia em Itapetininga. O relacionamento acabou com uma carta de despedida que explicava que ele fugira, pois não era bicho para viver preso. Não passou muito tempo e Maria também foi embora. A sogra, proprietária da casa em que vivia, a expulsou dizendo que não queria nunca mais ver a mulher responsável pelo desaparecimento do filho. Quando se foi, estava grávida, como um terço das mães adolescentes que, após dois ou três anos, voltam a engravidar. Do interior de São Paulo ao Paraná, Maria passou o resto da vida a vender vassouras que ela mesma produzia.

No Paraná, casou-se novamente. O segundo marido, que Maria não consegue mais dizer o nome, a espancava brutalmente tanto quanto o pai. Quando não tinha motivo para bater, falava que o soco era garantia de punição para o próximo erro. Ele a engravidou três vezes. Um dos filhos nasceu prematuro quando a bolsa estourou no meio do espancamento. O marido morreu de cirrose. Sobrou a aliança de latão no dedo de Maria e a certeza de que nunca mais se casaria.

Apesar das agruras, Maria teimou e não só sobreviveu. Foi além dos padrões da época. Atravessou o século XX e entrou no XXI. Por causa da caridade de um pastor, do filho adotivo e das assistentes sociais da prefeitura de Astorga, pode-se dizer que a vida hoje não é tão miserável quanto antes. Em 28 de fevereiro, os vizinhos celebraram o aniversário de 127 anos. Teve salgadinho e o bolo foi cortado com dificuldade pela própria aniversariante. O presente veio depois, quando a prefeitura dedetizou a região e liquidou as moscas que a perturbavam. Ela reclamava bastante dos mosquitos.

Para chegar à casa de Maria, basta virar à direita depois da cruz branca na entrada do vilarejo e perguntar para o primeiro homem sentado no bar do seu Geraldo. “Não tem erro. É uma casa velha, logo ali.”

A porta está aberta. Maria Olívia da Silva é do tamanho de uma vassoura de palha das que fabricava para sobreviver. Passa o dia sentada em uma cadeira de fios azuis de plástico e segura uma fronha de bebê. Antes, o pano servia para enxotar as moscas. Hoje, utiliza-o para cuspir, já que, se engolir saliva, engasga. Se o corpo de Maria quase não se move, o mesmo não se pode dizer dos olhos. De um lado ao outro, enterrados no rosto carcomido, atentos ao que ocorre ao redor. Quando aparece visita, ela diz: “Você me desculpa pela blusa rasgada…”

Diz, não. Resmunga. A língua não tem força para ascender ao céu da boca. Sem a pronúncia do “da” e do “ta”, suas histórias ficam sempre mal contadas. A boca não cerra mais. Se cada frase não for seguida de cinco segundos de descanso, a garganta se fecha e o ar acaba. Quando perguntam se tem noção de que é a pessoa mais velha do mundo, fica aérea. Depois, acha graça. Conclui que merece estar viva mesmo, já que não foi nada fácil agüentar tudo o que passou.

A velhice recorde foi descoberta em 2004 pelo Radialista Aparecido Marcos, locutor da Rádio Astorga. Ele ouviu sobre a existência de uma mulher muito idosa na região e foi conferir. Olhou a carteira de identidade da velhinha, checou no livro Guinness e se deparou com o maior furo jornalístico de sua vida. Aparecido morreu de infarto em agosto de 2006.

O pessoal do distrito de Içara conta que, há três anos, um repórter estrangeiro a entrevistou. Maria queria contar sua história sofrida. Mas o repórter insistia para ela revelar o segredo da longevidade.

“Sei não”, dizia.

O jornalista insistiu tanto que ela falou a primeira coisa que veio à cabeça. Disse que o segredo era a banana que comia todos os dias. E assim ficou: Maria venceu um século de vida, por causa dos efeitos benéficos da banana brasileira.

Edna Pereira dos Santos, que cuida de Maria, ri quando conta a história. Ela ganha 5 reais por dia da prefeitura pelo trabalho, mas nunca sobra dinheiro para trocar o piso da própria casa. Os azulejos não são tão brancos como antes. A missão de Edna é impedir Maria de tropeçar, como aconteceu há quatro meses. O chinelo dobrou, ela bateu a clavícula no chão, quase morreu. “E pode acontecer de novo a qualquer momento. Com exceção do filho adotivo e de mim, ninguém dá bola para ela. Até o pessoal da igreja que construiu essa casinha melhor foi embora”, conta Edna.

O pastor aparece uma vez por semana para oferecer a eucaristia. Mas, tão logo ela engole, regurgita o pedaço de pão e o suco concentrado de uva. Nada pára no estômago de Maria. Por isso, ela seca a cada dia. No almoço, come duas colheres de sopa de arroz, um pedacinho de frango e meia banana. Antes da 1 da tarde, vomita. No lanche da tarde, bolacha e café. Vomita de novo. À noite, a outra metade da banana, que não dura uma hora no estômago. Faz questão de ressaltar que não vomita por desdém. Para curar uma úlcera no estômago, Maria toma um remédio com o composto ativo Omeprazol. Aliado a outro comprimido, à base de Glibenclamida, para diabetes, a sensação de vazio no estômago aumenta e ela se torna vítima de uma fome que não consegue jamais saciar. O desejo e a necessidade física de comer transformam os dias e as noites de Maria em pesadelo. Ninguém sabe dizer se os gemidos são de fome ou de dor.

Além do apoio espiritual do pastor, as assistentes sociais da prefeitura de Astorga, cidade vizinha de Içara, a visitam pelo menos uma vez por mês. Suzie Pucillo, a líder do grupo, conta que Maria está completamente lúcida, apesar da dificuldade de falar e ouvir. “Bem melhor do que muito rapazinho de 80 anos por aí”, brinca.

A filha “rica” mora em Maringá, a maior cidade da região, com 300 mil habitantes. A última visita ocorreu há quatro anos e não durou mais do que dez minutos. Dos 14 filhos, sobrou apenas o adotivo por perto. Aparecido da Silva sobrevive com os trocados que ganha ao consertar guarda-chuvas e sombrinhas. Segundo ele, os cinco filhos vivos esqueceram Maria. Até 2000, ainda apareciam esporadicamente. “Eles entram por essa porta e logo estão saindo. Parece que têm medo da velha”, conta Silva, enquanto manuseia cartelas do jogo do bicho, outro bico que contribui para o sustento.

Silva não abandonou a mãe adotiva, mas reclama da convivência. Diz que Maria é sistemática, quer ser independente e, quando não consegue fazer as coisas por conta própria, dá bronca no primeiro que vê.

Ela faz questão de ir sozinha ao banheiro. Passo a passo, atravessa a cozinha, a sala e entra no banheiro. Quando termina, pega a vareta ao lado do vaso sanitário para puxar a descarga. Se alguém entrar antes, ameaça bater com o pedaço de pau.

A passos lentos, Maria teima. Antes dizia que não morria porque precisava cuidar dos filhos. Depois, porque não iria morrer na velha casa de madeira. Mudou de lar, mas prometeu persistir até resolver um problema com o INSS, que suspendeu sua aposentadoria por achar que falecera.

Até recentemente, a luta era contra as moscas. Mas agora, vencidos os insetos, está agoniada. Precisa de um novo motivo para continuar.

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