Trocando e-mails com Matt Barney

por Bruno Moreschi
Publicado no caderno 2, O Estado de S. Paulo (22/07/2007)

Preocupado em não ser protagonista de uma entrevista comum, o videoartista norte-americano propõe ao Estado um final de semana de conversas pela internet. O primeiro e-mail foi sucinto: “Aceito, mas gostaria de evitar a entrevista padrão, pergunta e resposta, você superior a mim, como o dono do mundo.”

“O que você sugere então?”

“Comece assim mesmo, como naturalmente tem de ser. E logo após eu me apresento. Oi, sou Matthew Barney, um ser humano.”

O aposto sugerido é breve demais. Não enfatiza a importância do trabalho do artista norte-americano mais importante da sua geração, como define o crítico de arte do New York Times Michael Kimmelman. Quando tentaram discutir sua obra no Brasil, em debate ocorrido em setembro de 2004 na Pinacoteca de São Paulo, o cineasta Carlos Adriano afirmou que a descrição verbal não consegue explicar as produções de Matthew Barney. Teve de citar Jean-Luc Godard: “A melhor crítica de um filme seria a realização de um outro filme.” Em 2006, nos estúdios de gravação de um dos vídeos de Barney, um figurante foi honesto: “Nunca tinha ouvido falar nele, mas é tipo um Picasso, certo?”

Sim, um Picasso com e-mail, disposto a trocar 16 mensagens, em três dias, sobre sua carreira. Matthew Barney nasceu em São Francisco, Califórnia, mas é em Nova York que reúne suas principais obras. Lá, seu trabalho está na galeria de Barbara Gladstone, uma espécie de mecenas contemporânea, proprietária de obras assinadas de vários artistas, entre eles, Anish Kapoor, Sharon Lockhart e Gary Hill. Em 1994, Barney começou sua produção mais conhecida: Cremaster, série de cinco episódios que mistura cinema com artes plásticas, fotografia e desenho. “Esses filmes são fundamentais para entender meu processo de criação. Tudo que crio está relacionado com uma espécie de sistema digestivo sensual que tem vida própria. É um outro planeta onde a fome sexual é o principal combustível.”

Sua explicação pára. No total, 17 horas de silêncio quebradas às 3h30, fuso de Nova York, com outra mensagem: “Talvez tenha sido infeliz na explicação anterior. Simplista demais. Meu trabalho não é uma relação tão direta ao sexo, porque, se esse ambiente fosse tão simples assim, eu não teria nenhum interesse em trabalhar com ele. Digamos que toda vez que revejo o resultado final dos cinco episódios, eu enxergo mais e mais elementos que comprovam isso que falei. Mas, é claro, sem generalizações.”

Na mensagem seguinte, Matthew Barney inverte os papéis de entrevistado e entrevistador ao me pedir uma lista das cenas mais marcantes de seus vídeos. Entre elas, cito o estranho homem rosa e de orelhas pontiagudas, que sapateia excitado ao ver no buraco do chão uma corrida de carro em que os veículos andam em lados opostos. Ou: A mulher loira de sapato plataforma está espremida embaixo da mesa enquanto reagrupa um conjunto de uvas que retirou de um buraco semelhante a uma vagina. Ou, ainda: A rainha, cercada por ajudantes japonesas, canta uma ópera e relembra o amado que partiu em um cavalo. Por fim, uma moça sussurra para seu homem: “Tell me… the secret of universe.” O pedido dela é atendido com uma relação sexual que ocorre no meio de abelhas.

Ele comenta, no próximo e-mail: “Engraçado. As cenas escolhidas por você não dizem o que quero realmente falar sobre a minha arte. Por isso, vamos na origem da palavra. Cremaster é um músculo que controla o sistema reprodutivo do homem. É algo automático, que ninguém consegue dominá-lo completamente. O que eu faço é tentar domar todo esse acaso e, logo após, filmar a tentativa.”

A conversa descompassada vai chegando ao fim. No campo ””assunto”” do penúltimo e-mail, vem o título “Eles jamais me assistiram” e ele mostra sua preocupação relacionada ao Brasil. “Eu fiz o filme De Lama Lâmina, no carnaval baiano de 2004. Foi a oportunidade de ver uma manifestação popular tão orgânica quanto surpreendente – e isso inclui todo o seu país. Mas o problema é que quase ninguém assistiu. Meus filmes estão nos museus, nas galerias, em poucos festivais. Quase nunca em cinemas onde as pessoas podem sentar e assistir. Sinceramente, nem sei se eles são feitos para isso. Entretanto, ao longo do tempo, o meu objetivo vai mudar, é uma decisão consciente minha. No recente Drawing Restraint 9, você percebe uma linearidade, tem mais cara de filme de circuito. E o tema não poderia ser mais universal: dois ocidentais, interpretados por mim e pela minha namorada Bjork, em uma embarcação baleeira japonesa.”

Assim, o e-mail termina. Bruscamente. Durante a manhã e a tarde de um domingo, Matthew Barney preferiu o silêncio na internet. Aparentemente, a conversa acabava ali, sem um final. Mas a madrugada trouxe o último comentário e a curta despedida do diretor: “Ask me no question. Ask me no question. And see you.”

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