Poucos sabem morrer


por Bruno Moreschi
Publicado na revista Piauí (01/2007)

No dia 15 de dezembro, na favela paulistana de Heliópolis, o futebol no pátio da fábrica foi cancelado. Era dia de luto. Zizinho morreu. “De quê?”, perguntou a vizinha ao ver a multidão chegar à casa de dona Adelina. O menino de 10 anos havia sido atropelado por um caminhão. O motorista fugiu, Zizinho ficou no asfalto.

Xavier Goulart, 58 anos, tio de Zizinho, foi o único que não se aproximou do caixão. Durante o discurso do pastor, saiu de fininho. Acendeu o cigarro com a mão esquerda, a do indicador que nasceu pela metade. “O moleque definitivamente não soube morrer”, comentou. Gostava de Zizinho. Três semanas antes, num raro momento de carinho, havia comprado para ele, por 19,90 reais, As Mais Belas Histórias da Bíblia. Zizinho abriu e folheou o livro ilustrado na frente do tio, que ficou furioso quando percebeu que a seleção não incluía a crucificação de Jesus. Quase pegou o presente de volta.

O que diferencia Xavier de outros taxistas do ponto da Peixoto Gomide em frente ao Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, é a sua maneira de encarar a existência. Xavier não acredita que a vida valha grande coisa. Pode ser rei, pode ser mendigo, todo mundo é ninguém até a hora de morrer. Agora, se a pessoa morrer dignamente (o que, para ele, pressupõe comoção nacional e/ou internacional), é hora então de tirar do porta-luvas a caderneta Ilustres que se Foram e registrar ali o nome do falecido. A caneta não é a Bic azul que Xavier oferece aos clientes para assinarem o cheque da corrida. Essa é de um tipo que ele só encontra numa galeria de produtos ilegais da avenida Paulista. Enquanto solta a tinta, a caneta exala um perfume de uvas que logo alcança as narinas do taxista. Ele então abandona no banco do passageiro a máscara da sisudez e, solitário, chora. “É a hora em que o homem dá lugar ao mito”, resume.

Foi assim com Paulo Autran, por quem Xavier nunca se interessara até que diagnosticaram um câncer no pulmão do ator. Não era tarde demais. Ainda foi possível ver Autran em O Avarento. O que achou? Xavier não sabe. Só teve olhos para o quase ex-homem. Os aplausos finais duraram belos dez minutos, o que o fez ter certeza: ali estava um espécime humano digno de sua observação.
No dia 12 de outubro, às 16h13, três minutos após a morte do ator, Xavier mais uma vez se desfez da máscara. Dentro do táxi, parado no ponto do Sírio-Libanês, ele percebeu que jornalistas, antes sorumbáticos pela espera da Ceifeira, começam a se mexer como baratas tontas. Som de helicóptero, refletores acesos. As luzes da TV chegam até seu rosto. Xavier olha para cima, tentando imaginar em qual andar Autran estaria. E, sorrindo respeitosamente, imagina Willem Dafoe no papel de Jesus Cristo rumo à cruz, no filme de Martin Scorsese. Outras duas imagens lhe vêm à mente: a multidão de ingleses depositando flores no Palácio de Buckingham para a princesa Diana e o zazzz seguido de bum! que anunciou a morte de Ayrton Senna. Ele nunca se esquecerá de que em poucos minutos apareceu na pista um vultoso helicóptero branco de listas alaranjadas para levar embora o corpo do piloto. “Helicópteros combinam com mortes que se prezem”, explica.

Enquanto o Brasil era informado de que Paulo Autran se fora, Xavier preenchia a caderneta. Por descuido, escreveu “Atran”, erro do qual nunca se deu conta. Em seguida, premiou o nome com quatro estrelas, a mesma avaliação atribuída aos atores Raul Cortez, Nair Bello e Gianfrancesco Guarnieri. Senna e Diana mereceram cinco. Jesus Cristo é o único com seis.

Cinco dias depois, ainda pensativo, perambulava pela cidade com seu táxi. Apontou para uma multidão que atravessava uma faixa de pedestres na rua Augusta: “Massa sem vida. Pensam que estão vivos. Acordam às seis da manhã para chegar às nove no trabalho. Vibram de alegria por ter uma hora de almoço. Chegam às dez da noite em casa e dormem. Ninguém deles ficará”. E emenda: “Não sou gótico, não suporto cemitério. Sou só um cara que vê beleza no nascer de mitos”. Sem pressa, vira o Corsa sedan branco em direção à avenida da Consolação.

Os cinco filhos de Xavier querem levar o pai a um psiquiatra. Nem tanto por causa da mania de acompanhar a morte de personalidades. Isso vem de longe, tanto que ninguém se espanta com o quarto do velho, cheio de pôsteres de artistas falecidos. Elvis está em destaque, bem acima da cama. É fato que a família quase enlouqueceu quando, em janeiro de 1982, depois de assistir à notícia de que Elis Regina havia morrido, ele se levantou do sofá para sumir por cinco longos dias. Quando voltou, trazia a caderneta.

Mas isso é passado. Hoje o que preocupa é que, dia após dia, Xavier pega mais bronca do mundo. Sobrou até para o melhor amigo, Flávio Bicudo, pasteleiro aposentado: “Ele apareceu aqui um dia e disse que não tinha mais amizade entre nós. Que eu era um ser humano vivo e imprestável”.

Não raro, Xavier agora cospe no prato do café-da-manhã, não aparece para almoçar, chega do trabalho com cheiro de pinga. A família suspeita de que ele não faz mais corridas pela cidade. Prefere andar de carro sozinho: do Sírio-Libanês para o Albert Einstein, do Einstein para o Hospital das Clínicas. Ele pouco tem falado com as pessoas. Só canta-rola: “Os sonhos mais lindos sonhei… De quimeras mil um castelo ergui…”

Quando o corpo de Paulo Autran se reduziu a cinzas no crematório da Vila Alpina, na zona leste de São Paulo, Xavier estacionou o táxi próximo da entrada, do outro lado da rua. Pela primeira vez, não ousou se aproximar. Cabisbaixo, ficou folheando a cadernetinha. Os dedos custavam a virar as páginas. Logo após o nome de Paulo Autran, havia meia dúzia de prováveis futuros mortos.

Mas, de acordo com Xavier, não é bom revelá-los. “Morte não se anuncia. A Morte se dá. Assim mesmo, com letra maiúscula”, explica.

Na última folha preenchida, um nome riscado. Vislumbra-se a primeira letra: X. Escreveu bêbado. Depois, sóbrio, rabiscou a injúria com a caneta especial e espalhou a essência artificial de uvas pelo carro: “Desse grupo, infelizmente eu sou só observador”.

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