Professor, cadê você?

por Bruno Moreschi

Publicado na revista Carta Capital (19/09/2006)

Os que vivem na Praça XV, no centro de Florianópolis, concordam em uma coisa: o Professor é o homem mais culto do Brasil. Há três meses, depois de mais uma noite na escadaria da catedral, ele desapareceu misteriosamente. Confusos com o sumiço, seus companheiros elaboraram várias versões para explicar o caso.

O Professor é um morador de rua que se autodenomina revolucionário e que fala português, inglês, espanhol, francês, italiano, alemão, holandês, ao todo, sete idiomas. Antes de ter ido embora, ensinava essas línguas aos colegas, logo após o almoço, a divisão dos restos de pães doados pelo padeiro do outro lado da rua.

Os funcionários da antiga sede da Câmara de Vereadores costumavam vê-lo subir em uma das mesinhas de pedra construídas pela prefeitura e, sob seu domínio, possuir uma sala de alunos atentos. Estudantes-mendigos que também ouviam a respeito de Marx e Weber, lições que se transformavam, quase sempre, em intermináveis discussões, nas quais mestre e pupilos embebedavam-se com a cachaça de 1,50 real comprada em uma das mercearias do Mercado Público. Hoje, os goles, antes tomados para discutir filosofia, ajudam a esquecer a ausência do Professor e a criar diferentes hipóteses para seu sumiço.

Os amigos contam que, dois dias antes do seu desaparecimento, em uma noite de temperatura agradável, daquelas em que o cobertor xadrez é desnecessário, ele reuniu todos e, de dentro da sacola protegida pelo cão Babeco, retirou com cuidado uma pasta de capa cinza. Papéis com números, desenhos, uns triângulos de ponta cabeça. O Professor esclareceu do que se tratavam os cálculos escritos em próprio punho. A turma relembra o tom da sua voz mansa decrescendo a cada final de frase. Depois de alguns segundos de silêncio, retornava na suave cadência característica. “Aqui está a equação matemática, cuja solução será capaz de explicar… tudo nesta vida”, disse, procedido pelo som dos aplausos dos colegas.

Essa história, seguida do misterioso desaparecimento, fez com que a maioria dos moradores da praça acreditasse que o Professor foi embora em busca de um lugar mais tranqüilo, ideal para encontrar o resultado do problema. Mas ele não poderia simplesmente ter solucionado e fugido com a resposta? “Nunca! Isso nunca, porque, se o Professor achou o tudo, então, ele precisa voltar para levar a gente. Somos parte desse tudo aí. Quem pensa que a gente é nada, tá enganado!”, esbraveja Cica, a mãe da boneca sem braço que dorme no seu colo, seu bebê sempre comportado.

A última e talvez a única imagem de que se tem registro do Professor foi feita por um casal de ex-namorados do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina. Meses atrás, eles apareceram ali para realizar uma reportagem sobre os moradores de rua de Florianópolis. Nas filmagens, o Professor deu uma entrevista contando um pouco de sua vida. O episódio é o argumento para outra versão do sumiço, criada por João Polícia Federal, um morador de rua que assusta os pedestres do centro ao gritar ordem de prisão para qualquer um. Ele crê que o Professor se mudou, porque foi contratado, em sigilo, pela polícia norte-americana para capturar Osama bin Laden.

Para João, é óbvio como isso ocorreu: as autoridades dos Estados Unidos, que, como ele afirma, mapeiam tudo neste mundo, pegaram o sinal da antena que transmitia o programa produzido pelo casal da universidade e acharam genial aquele douto mendigo que falava frases em um impecável inglês. A expectativa dos defensores dessa versão é de que ele voltará assim que encontrar o líder da Al-Qaeda. Eles esperam que, com a recompensa em dólar pela captura de Bin Laden o Professor compre uma mansão para os moradores da Praça XV em Jurerê Internacional, o bairro de milionários em Florianópolis. “Aquela azul bem grande, do ladinho da casa da Gisele Bündchen”, diz João Polícia Federal, o único que recusará o convite para se mudar, pois, diferente do Professor, sua missão continua: proteger as pessoas dos pombos da cidade. “Preciso evitar que vocês encostem neles, porque, você sabe, esses bichos são extremamente venenosos.”

Na entrevista para a tevê, o Professor revelou que, na década de 50, foi comissário de bordo da Panair do Brasil, a empresa que desapareceu após uma canetada do ministro da Aeronáutica brigadeiro Eduardo Gomes, que cassou os direitos da aviação e transferiu suas rotas aéreas para a Varig e a Cruzeiro do Sul. Por causa desse emprego, 30 mil horas de vôo, as histórias do Professor se passam nos mais diferentes locais do mundo. Ele prefere, porém, aquelas ambientadas na Europa, afinal, o grande amor da sua vida chama-se Simone e vive em Paris.

Quem conta a história romântica é Francisquinha, a atual namorada do Professor. Ela faz parte do grupo que acredita que ele saiu em busca da Simone, “a mulher mais bonita do mundo”. Os dois conheceram-se no aeroporto Charles de Gaulle e bastou uma única troca de olhares para se beijarem durante longos 15 minutos e ficarem juntos por curtos dois anos. Depois, o Professor sumiu, como fez agora com os amigos da praça e, desde então, avisa a todas as mulheres que nunca mais vai amar alguém. “Com esse jeito sincero que dói, todas ficam apaixonadas”, diz Francisquinha, um pouco antes de reconstituir os seus últimos momentos com o Professor.

Na última noite em que foi visto na praça, ele agachou e beijou a sua testa. Eles estavam brigados, porque o Professor havia confirmado que sonhou a noite passada com Simone. Em um primeiro momento, Francisquinha gritou de raiva, mas logo se acalmou como sempre com a conversa calma do professor, suas ressalvas e um jeito carinhoso de tocar no ombro feminino, meiguice que Francisquinha faz questão de ressaltar, detalhe inesquecível para ela. Os dois dormiram juntos, dividindo um cobertor marrom que, provavelmente, algum dia, foi cinza. Ela lembra que, de madrugada, o Professor levantou-se e foi dormir na escadaria da catedral, certamente para acordar ao relento, na companhia dos pombos gordos, que tanto desesperavam João Polícia Federal. Ao nascer do sol, ninguém mais viu o Professor.

Foi um desespero total para todos, com exceção de seus dois melhores amigos, o Sanitarista e o Caminhoneiro, os únicos que ainda acham que o Professor volta. A despreocupação deles causa estranheza. É provável que os dois saibam da verdade. Eles desconversam quando alguém pergunta: “Onde está o Professor?” Mudam de assunto contando a história do homem que, logo ali, anda aos tropeços na calçada de pedra-sabão. Eles explicam que o cambaleante que murmura “Nossa Senhora”, dia e noite é filho de um importante militar de Santa Catarina com uma mulher que dormia embaixo do busto de Jeronymo Coelho, o fundador da imprensa catarinense. Seu apelido é Farinha, pois, quando teve a chance de furtar um supermercado, levou apenas um saco de farinha de mandioca.

Comeu tudo, foi levado ao hospital Celso Ramos, quase morreu desidratado. O Farinha não sabe a diferença entre as coisas, inclusive entre comida e dinheiro. Ele rasga cada nota de 1 real que recebe de esmola e engole pedacinho por pedacinho, ritual que pode levar um dia inteiro. É o único que não opina sobre o desaparecimento do Professor, apenas repete “Nossa Senhora” para todas as circunstâncias da vida.

Hoje, além da tristeza pelo cancelamento da aula a respeito de Marx, os moradores da praça sentem falta de um líder na equipe de dominós. É provável que perderão mais uma vez, a terceira quarta-feira seguida, para o grupo de operários que reforma a catedral. O Professor, que, além de poliglota, tem fama de grande estrategista nos jogos de dominó, faz falta. Eles estão cansados de esperar que o mestre decida voltar por conta própria. Por isso, decidiram divulgar ao mundo todo o seu verdadeiro nome: Carlos Weizel, nome confirmado pelo casal da universidade, que viu o RG do Professor no dia das filmagens.

O pessoal da praça teme esquecer das aulas, das histórias, dos idiomas e dos momentos em que o sol se punha e ele subia nas mesas construídas pela prefeitura, gritando que era o Napoleão daquela ilha invadida por ingleses. Ele pode voltar tranqüilo, ninguém vai cobrar explicações. Os pupilos recusam-se a acreditar numa última versão, fantasiosa demais para eles: a de que o Professor foi vender sanduíche natural nas dunas da Praia da Joaquina e, subitamente, sumiu como um bandoleiro qualquer.

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